Torre de Babel

Antônio Bispo do Rosário
                                         

                                          POTLATCH


                                                      José Antônio Cavalcanti 

Num dos cursos feitos com Angélica Soares, no mestrado em Ciência da Literatura na UFRJ, encontrei este estranho nome: “potlatch”. O curso, sobre erotismo e literatura, tinha por núcleo teórico a conhecida obra de Georges Bataille – O erotismo. Todavia foi em outro livro do mesmo autor, La part maudite, que encontrei pela primeira vez a palavra cuja estranheza incomodou-me.

A minha edição de La part maudite, que vem precedida por La notion de dépense,  dedica o segundo capítulo da segunda parte, intitulada “Le Don de rivalité”, ao potlatch, que aparece inclusive no subtítulo “Le potlatch”. Nele Bataille apresenta e explora o conceito desenvolvido por Marcel Mauss, em Essai sur Le Don, Forme et Raison de l’Echange dans les Sociétés archaïques, dans Année Sociologique, 11923-1924, p. 30-186.

Depois voltei a encontrar o termo no artigo de José Castelo “A maldição de Potlatch”, dedicado a Hilda Hilst e incluído no livro Inventário das sombras (p. 91-108). Sublinhei no meu exemplar a passagem “foi lendo Bataille que Hilda descobriu a noção de Potlatch, e nela julga ter encontrado um nome para a maldição que a atormenta”, pela coincidência de caminhos; eu e Hilda, distantes e díspares, penetrando em trilhas comuns. O artigo ainda tem algo essencial: a ideia de maldição lançada à existência do artista. 

José Castelo resume o pensamento desenvolvido por Bataille sobre o potlatch:

“[...] Os etnólogos identificaram o Potlatch, pela primeira vez, entre os índios da costa noroeste americana. Em um ritual incompreensível para nossa, os ameríndios tinham o hábito de pegar a parte mais importante de sua riqueza e simplesmente destruí-la. Bataille encontrou indícios do mesmo ritual de sabotagem em outras culturas, bastante diversas entre si, o que pode indicar que o homem carrega um elemento fixo, uma espécie de impulso para o aniquilamento, que ultrapassa as circunstâncias culturais. No século XIX, chefes tlingit apresentavam-se diante de rivais para, em cerimônias de truculência e desperdício, decapitar seus próprios escravos. Os tchukchi do nordeste siberiano, igualmente impulsionados por forças predatórias que não podiam definir, degolavam seus cães. Também os índios do noroeste americano, nos tempos de maior fartura, incendiavam aldeias inteiras, ou destruíam canoas, armas e reservas e alimentos. Dissipar riquezas, em todos esses casos, não era só um ato de autossabotagem, mas uma maneira de acumular outro tipo de poder, hoje bastante desprezado: a glória. O Potlatch se constrói sobre uma lógica bastante elementar, mas nem por isso menos cruel: a de que a maldição traz glória.

A dilapidação gratuita de energia nada parece desejar em troca: mas Bataille mostra que ela busca, sim, uma forma secreta de prestígio, uma espécie de dom especial. 'A dádiva nada significa do ponto de vista da economia geral', mostra Bataille, apontando para a inutilidade das explicações baseadas nas relações materiais. O Potlatch ultrapassa o mundo da matéria: nesse exercício, gratuito e chocante, do poder de perder, o que se perde é o que menos importa. Ele conduz a uma forma invertida de glória, que nem por isso deixa de ser menos gloriosa, e que não está tão distante de nós quanto parece. Hoje em dia, a lógica do Potlatch pode ser identificada em muitos aspectos da ostentação social, do luxo exagerado, e no gozo com o desperdício, na supermacia do consumir sobre o produzir no esbanjamento. 'Uma vez volatilizados os recursos, permanece o prestígio adquirido por quem volatiliza', escreve Bataille. O Potlatch é o emprego inútil das riquezas, seu extravio insano, seu aniquilamento sem qualquer objeto material. 'Várias de nossas condutas são redutíveis às leis do Potlatch, possuem o mesmo sentido', afirma ele."

Aqui me parece que aquilo que o autor chama de uma espécie de glória invertida permite aproximar o Potlatch à ideia do fracasso beckettiano, o erro, a queda e a perda como uma possibilidade de caminho. Partilha em comum de uma radical recusa ao utilitário e ao conceito de valor implícito na cultura de acúmulo de bens.

Depois voltei a encontrar o termo em pelo menos duas entrevistas concedidas por Hilda Hilst. Na primeira, publicada pela Azougue (ver bibliografia), menciona o texto de José Castelo. Hilda aparentemente endossa o uso do termo em referência à sua obra. Refere-se a Potlatch como o “poder da perda”. A expressão refere-se crítica e ironicamente a disjunção entre a alta qualidade que atribuía  sua obra e a diminuta ressonância obtida em relação a crítica e público. A maldição como propriedade do artista que não transige, vive no deserto, vive contra, paradoxalmente, no entanto,  deseja o abraço, o reconhecimento.

Na outra entrevista, concedida a Ana Lúcia Vasconcelos, Hilda justifica a denominada fase erótica de sua obra afirmando “que ficara fascinada com a parte maldita dos ensaios do escritos francês Georges Bataille, de que, aliás, gostava mais do que da sua obra de ficção". "Eu tenho a impressão que ele tentou a salvação, por isso escreveu todos aqueles livros evidentemente pornôs. Quando li a parte maldita tive a compreensão do por que ele escrevia aqueles ". E acrescentava que justamente ficara fascinada com todo o processo de Potlach, através do qual ele foi se conhecendo que resumindo para ela significava o "poder de perder". 

"O Potlatch para quem não sabe, é um ritual dos índios norte-americanos, aparentemente uma grande festa que se celebra nos batismos, nos casamentos, nas datas mais marcantes. Os índios exibem as coisas mais bonitas que possuem, mais preciosas que possuem: mantos com plumas finíssimas, objetos que construíram artesanalmente, alem de objetos que eles dão para outras tribos. ‘È uma grande demonstração também de poder, o que, aliás, toca naquilo que a gente aprende na escola que é a economia política, que é a ciência das trocas” Hilda então, refletindo sobre tudo isso, o poder do dinheiro na nossa sociedade, a vontade de ter, concluiu, através deste ritual do potlatch, que o verdadeiro poder estava na capacidade de perder, renunciar, se reduzir ao mínimo necessário para viver’. E reconheceu ‘que todo seu esforço na busca da renovação da linguagem, havia sido excessivo. Quer dizer a minha busca, minha tentativa de transmitir a quem me lesse a sensação profunda da vida, da experiência da vida, - que seria você colocar o horizonte mais longínquo de si mesmo, a serviço da sobrevivência do outro. É que eu queria despertar um lado do ser humano que ele ainda se recusa a ver, como entre outras, essa experiência importante que o homem pode ter. agora sim, que sinto que posso que eu tenho o direito de fracassar. Eu passei 40 anos de reclusão dedicada a escrever e tudo de mim não teve eco, não fui compreendida, não fui consumida, não fui aceita’. ”

Retorno a Bataille: ‘Pourquoi aurait-elle cru qu’à l’origine, un mode d’acquisition come l´’échange n’avait pas répondu au besoin d’acquérir, mais au besoin contraire de perdre ou de gaspiller?

Mas a perda não corresponde nunca a um vazio: “Mais la richesse effectuée dans le potlatch – dans la consommation pour autrui – n’a d’existence de fait que dans la mesure ou l’autre authentique devrait être solitaire mais elle n’aurait pas l’achèvement que l’action qu’elle a sur l’autre lui confere. Et l’action exercée sur autrui constitue justement le pouvoir du don, que l’on acquiert du fait de perdre. La vertu exemplaire du potlatch est donnée dans cette possibilite pour l’homme de saisir ce qui lui échappe, de conjuguer les mouvements sans limite de l’univers avec la limite qui lui appartient”.

O pensamento de Bataille aponta para uma complexa relação entre o potlatch e a estrutura social, a riqueza, as tensões entre o luxo e a miséria. Mas isso é outra história, ou outra leitura.

Aqui, nesta página invisível, penso no potlatch de Bataille, de Maurras, de Hilda, dos índios norte-americanos e no nosso – milhões de celulares, telas, carrros, pilhas e pilhas de sucata, pneus imprestáveis, lixo radioativo espalhado, florestas dilapidadas, cidades-monstros, engarrafamentos, filas de desemprego, migrações em massa, favelas. A enumeração anuncia-se infindável. O que nos marca? O que nos distingue? Nós que bebemos o substantivo progresso, que nos lambuzamos com os poderes da evolução, agora na forma impiedosa de avanços tecnológicos, o que acumulamos? Qual o nome da montanha de lixo que produzimos? História, Vazio, Loucura, Ciência, Humanidade, Destino, Progresso? Ou será que vivemos no caos porque não possuímos nenhum nome? Humano é uma referência vazia apontada para uma possibilidade que está sempre onde não estamos.

Por isso potlatch, deturpado por mim, contaminado pela minha permanente não compreensão, é o meu sangue, não o orgânico, mas aquele que vaza do meu corpo criador, da minha alma. Sou permanente revolta e ebulição, fugindo de mim para alimentar o outro, destruindo qualquer poder pessoal para circular, despido de domicílio e fixidez para virar pura energia criadora. Assumir o princípio da demolição da obra, arruinar a escrita e oferecer ao outro o palácio que nos custou tanto, abrir as ruas de acesso à devassa do íntimo,  a linguagem como sacrifício, a chave da morada do ser, a passagem a outras realidades,. Essa é a dança  nas fronteiras entre o limitado e o ilimitado.  Essa é a maldição da arte.

BIBLIOGRAFIA

BATAILLE, Georges. La part maudite précédé de La notion de dépense. Paris: Les Éditions de Minuit, 1990.
CASTELO, José. Inventário das sombras. Rio de Janeiro: Record, 1999.
HILST, Hilda. “Estilhaça a tua própria medida” – entrevista. In: COHN, Sérgio (ORG.).    Azougue 10 anos. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2004.
VASCONCELOS, Ana Lúcia. “Caudalosa, recortando as palavras, eis a poeta, ficcionista e dramaturga”. In: www.cronopios.com.br/site/ensaios.asp?id=1569


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Em relaçao ao uso de "hem" ou "hein", sempre usei a segunda forma, mas resolvi adotar a primeira após encontrá-la sistematicamente usada no romance O sonâmbulo amador, um baita livro do José Luiz Passos. Daí fui procurar a razão de tal uso, já que "hein" sempre foi largamente empregado por nossos autores.

O abandono da forma "hein" deve-se ao fato de que esse som, o de “-êim” ou “-êin” nasalizado final, deve ser escrito (é uma regra da ortografia em português) como “-em” (em palavras com mais de uma sílaba, o e deve ser acentuado: “-ém”). Basta pensar na palavra “quem”, que rima com esse “hein”. Ou em “trem”, “bem”, ou “também” , todas terminadas em ditongo nasal.

A palavra “hem” está inclusive nos Dicionários e no próprio Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. Já na primeira edição do Aurélio, lá estava a palavra: "hem", interjeição, que “denota não haver a pessoa entendido bem o que lhe falaram, ou ter ficado indignada ou surpresa com o que ouviu; pode equivaler também a ‘não é verdade?'".E exemplifica com passagem da obra de Graciliano Ramos.

É “hem”, justamente, a grafia usada pelos autores brasileiros clássicos. É, ainda, a forma recomendada pelas gramáticas tradicionais – que condenavam o uso, já há décadas evidente, da escrita “hein”, que consideram ser ou influência do francês, ou simples escrita errada influenciada pela pronúncia.

Aurélio sequer registrava a variante popular “hein”. Nas versões atuais do Dicionário, assim como na versão atual do Houaiss, a grafia “hein” foi incluída, mas remetendo-a, ambos os dicionários, para a grafia oficial, “hem”.


O novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa eliminou definitivamente qualquer dúvida que poderia haver quanto à impropriedade da grafia da interjeição em questão; na seção especialmente dedicada a quando usar (e a quando não usar) a letra h em português, em que diz, expressamente, que o “h” inicial será usado, entre outros, em: “haver, hélice, hera, hoje, hora, homem, humor“, e em “hã?, hem?, hum!“.

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Cica dos oitis

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