quarta-feira, 19 de julho de 2017

23 haicais
















23 haicais

1
Há males que vêm,
há outros que vão embora,
os piores voltam.

2
Folhas maduras
dançam na luz noturna
do olho da rua.

3
Mãos estendidas
na chuva. Os pés não cabem
na rua alagada.

4
Luz suspensa. Ar
parado. Vento morto.
Você no portão.

5
O frio nos espia
com grossas lentes azuis.
Geleira no corpo.

6
As folhas estalam.
Minha amada me segue
para cegar-me.

7
Cigarras virão
com canções de despedida
aquecer o verão.

8
Bashô no Leblon
viu a lágrima na onda
da banhista nua.

9
Frutos nos galhos
em breve. Polpa nas bocas,
pecado nos corpos.

10
Camaleão imóvel
escreve eternidade
no muro em ruínas.

11
Plantas adormecem
na cidade morta. Filtram
ar, silêncio e sonhos.

12
O céu desaba
chuva e cheiro de terra.
Lentes lavadas.

13
Nova primavera
invejosa do verão
incendeia a flor.

14
Calor infernal,
aves voam em chamas
no céu amarelo.

15
Quando o outono
voltar, outro amor virá
com a aurora.

16
Estala o galho
quebrado como beijo
seco e gelado.

17
Folha de veludo
verde no chão vagabundo,
breve as formigas.

18
Tremor no céu
manhã de tempestade
sem você ao lado.

19
Sabiá suspenso
no poste cinza inclinado
canta luminoso.

20
Lágrimas na lua
caem de olhos magoados.
Madrugada cheia.

21
Te vejo no beco.
Cabe o universo inteiro
em via tão estreita?

22
Neblina espalha
blindagem na mata virgem.
O sol traz a chave.

23

Vulto sem asas
o uirapuru de plástico
e pilha. Pilhagem.

domingo, 16 de julho de 2017

Mar residual

Oswaldo Goeldi














Mercúrio.
arsênico
cádmio
chumbo
cobre
cromo
zinco
no mar

Gaia faz água

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Huidobra espacial

"

















Huidobra espacial

Caro Huidobro, meu paraquedas de antiversos
me lança longe do abismo.
De que me desfaço
para acertar o alvo?
Chamo todos os ventos a plenos pulmões
mas espalham anarcoversos
só do lado oposto ao de minha queda.
Me empresta aquele telescópio
que funciona como revólver.
Vou derramar estrelas
em tempos mortos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Zona cega

Kurt-Schwitters









Zona cega


1.
exausto de existir
em branco
habito
os pontos cegos
da escrita

2.
a vida
lá fora
circo mambembe
alegria maldita
anestesia
transgressão legislada
para manutenção
das aparências
anarquia
sob controle remoto
de Wall Street

3.
existir em branco
poderia
abrir livros para colorir
sépia
ocre
fúcsia
magenta
verde-musgo

em qualquer cor
a mesma oclusão
(qual será o tom da morte?)

4
meu país apenas paisagem
extenuado
de acomodar em contêineres
toneladas
de palavras
de segunda classe
destinadas
a pastagens de olhos
insalubres
em ilhas
afundadas em névoa
e inércia

5
palavra
minha capa de invisibilidade
febril
mostra-se
cada vez mais frágil
à ferocidade
de manadas
cães e guardas
assassinos
cercas de diálogo farpado
postos de extermínio
dos escritos
círculos fora de catálogos
nos circuitos subterrâneos
da cidade em curto.

domingo, 2 de julho de 2017

Vênus in box

Jan Saudek















A menina dos meus olhos
mina
mel e maná
antes que ácidas gotas
hialinas
cavem covas na face  
fissuras na boca
ao ver a mulher da vida
virar estátua sem sal
“Belle hideusement d’un ulcère à l’anus”.

Sob céu de carne
a memória da língua
é mar extinto.

Não virar o rosto
para ver o que não vingou.

Arménio Vieira

Vincent Van Gogh, Nature Morte aux Oranges, 1888.


















Poema de  Arménio Vieira, poeta cabo-verdiano. 


Antipoema

Já sei a eternidade: é puro orgasmo.
Como assim, meu caro Drummond,
se o que se segue ao sêmen
são as sobras de uma laranja
cortada em dois, sendo que
uma das metades é apenas casca
lembrando a pele que as múmias
costumam ter, enquanto a parte
que teima em ficar redonda
é só a metade de uma geometria
que já foi doçura e polpa,
agora acre e assassina mais que a faca,
ao lado da qual jaz, definitivamente torpe,
já que as próprias moscas, apavoradas, fogem.

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...