sexta-feira, 23 de junho de 2017

Poça

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas e atividades ao ar livre
Fotos de Gavin Hammond



















Poça


Hora de arrumar a pilha de desculpas
Amassar sem culpa dívidas e projetos adiados
Encurtar a distância entre os polos
Sem temer calotas geleiras icebergs
Dissolvendo-se em poças noturnas
Um pouco abaixo da linha dos morcegos.

Quando amanhecem lambendo o sol.
Gosto de olhar as águas impuras desses mínimos oceanos,
Preguiçosas, conformando-se a relevos
Ásperos, imprevistos, estendendo-se amorfas,
Longos losangos, irregulares, místico triângulos, redondas,
Sempre espelhos que guardam no fundo
De cavidades ou abscessos no corpo do asfalto
Tão raso céu sem sombra de divindade.

Todos os atos,
Todos  as ideias,
Todos os acontecimentos
Todos os meus poemas cabem numa poça
E durarão até o próximo dia ensolarado.


Pistola com silenciador para distâncias impossíveis





















Pistola com silenciador para distâncias impossíveis

A vida
é jogo
em caminhos
dados
ao acaso.
Desvio entre lugar algum
e o nada,
ponto em branco
que os sentimentais chamam
de morte ou ocaso.

Pegadas
de plantas
de pés chatos,
trilha de pistas falsas,
notas
atoladas
na lama
de partituras
de dissonâncias
rasgadas.

Tudo é desvio
e círculo vazio.

Presas
à terra
umbilical
à maneira
de rachaduras,
as palavras.
trocam saliva
por líquido amniótico
e voltam ao silêncio inaugural.

domingo, 18 de junho de 2017

Insígnia




















Insígnia

Íntimo
jardim de flores raras
por onde há pouco
passavam cantigas
alagoanas do século passado.
Descolada do corpo
tanta memória
que me afogo
em rios secos
e em lagos de águas passadas.
Ainda ouço
a velha voz iconoclasta
na varanda:
“Quebra tudo e vamos se embora”.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

A última encomenda da noite incompleta




















Separei todas as sílabas do silêncio,
envolvi em papel de ausências da noite mais funda
e despachei tudo num trem fora dos trilhos
para a última estação lá no fim do mundo.
Quando o silêncio mais longínquo
multiplicar a distância,
ampliando o deserto da linguagem
até à surdez mais espessa,
não existirá caminho algum
para a esperança.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Damsi Figueroa















Damsi Figueroa é uma das voz mais potentes do Chile, país de riquíssima tradição poética. Arrisquei traduzi-la aqui. 



Yo no soy la que se pierde
tan pronto como se la encuentra
El amor en mí no se toca
se escribe
Yo no soy piadosa con los hombres de poca fe
no intercambio los calzones con nadie
en cambio asumo la desvergüenza
de una desnudez colectiva
en una casa de playa
o en una playa a secas
Yo no escribo para nadie
aunque intente escapar
y evite sacarte al baile
Tus malabares y piruetas
siempre exigen un aplauso cerrado
es decir, una palabra
Yo no me complico la vida
omitiendo adverbios y conjunciones
Patino por la hoja
y tapo los surcos amargos
con la sangre de mis amigos
Yo no hago el amor
lo desarmo
por el puro gusto de volverlo a armar
una y otra vez
hasta tener sexo
para olvidarme del amor
y de todos ustedes.

* * *
Autoconhecimento

Eu não sou a que se perde
pouco depois de ser encontrada
Amor em mim não se encosta
se escreve
Não sou piedosa com os homens de pouca fé
não faço câmbio de calcinhas com ninguém
ao contrário, assumo o despudor
de uma nudez coletiva
numa casa de praia
ou numa praia desabitada
Eu não escrevo para ninguém
embora tente escapar
e evite chamá-lo para dançar
Os seus truques e malabarismos
sempre exigem aplausos intensos
ou seja, uma palavra
Eu não complico a minha vida
omitindo advérbios e conjunções
Deslizo na folha
e cubro os sulcos amargos
com o sangue dos amigos
Eu não faço o amor
o desarmo
pelo puro prazer de voltar a armá-lo
vez após vez
até chegar ao sexo
que me faça esquecer do amor
e de todos vocês.

sábado, 3 de junho de 2017

Profano

Adriana Varejão


















Profano

Gosto de chaveiros
metálicos
com imagens de santos.

Que barulho engraçado
fazem
e que cara de espanto
quando nos veem pelados.

Horas depois
ao pular da cama
às voltas novamente com as roupas
encontro no chaveiro
um retrato em branco.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A poesia só me causa problemas




















A poesia só me causa problemas

Cheguei atrasado
ao último Verso
em pose de difícil
métrica de cu doce
ultraneopós-simbolista.
Ainda o vi entrar no metrô.
Não o chamei,
fiquei parado com o celular na mão
na fila dos fora de ordem.

Não quero conversa
com palavras lutulentas
nem com suas irmãs amaldiçoadas.
Nada de Intimidade,
de Troca de e-mails e mensagens.
É preciso afastar o Próximo
para o outro lado da lua.

Desdém da raposa por vulvas
invulneráveis,
descascam os detratores.
Críticos impiedosos
afirmam só existir Poetas
onde Desastres amorosos
ad vitam aeternum.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Acontecimento





















Acontecimento

Vou chegar tarde
ao lugar que não existe.
Assim que chegar,
o lugar surgirá.


Esquiva

Oswaldo Goeldi

















Esquiva


O tempo tenta retemperar a noite extinta,
dela não recupera, no entanto,
a imagem imperfeita do instante
em que o amor escapa
a qualquer backup.

O que uma tarde nublada me fez escrever




Há cinco anos postei esse texto aqui no Facebook. Relendo-o hoje, fico me perguntando por que o abandonei.

O que uma tarde nublada me fez escrever

O nihilismo para o alto, um oxímoro, mas preciso flutuar. Não é minha deriva, embora tenha manchado a minha camisa e a curva do meu caminho. Mantenho a palavra com agá para ampliar a remissão ao nada. Na verdade, afundo para outros lados, talvez para cima. O nihilismo foi filosofia, hoje estampa camisetas, nobilita currículos, edulcora mercadorias e entrevistas de celebridades. Enfim, a codificação de zumbis, Nietzsche em versículos para epifanias inalcançáveis. O lugar para onde se vai sempre será o sem nome, pois inominável é qualquer horizonte, caso tal linha/fronteira ilógica exista. Meus tênis não suportam mais buscas originárias nem jornadas teleológicas.

Do quiasmo onde me engasgo em simetrias temporais (hoje é ontem : ontem é amanhã), desse eco onde me fundo, me perco e me projeto, vejo no anátema do pensamento uma coleção de fraturas abertas: necessário desossar a filosofia, expor a mudez dos fragmentos, desnudar as formas do provisório, explodir o chão dos aforismos. Ideias que se lancem além do nível da frase e teçam a teia da complexidade mais insana.

O super-homem trabalha como laranja para as grandes corporações. Se não há humanidade, não existe humano muito menos super-humano. A humanidade é tudo aquilo que abandonamos, os sonhos que perdemos, acumulados num projeto de irrealização, a progressiva desertificação do ser.

Por todo lado o novo começa por suas próprias cinzas. O homem-prótese nos assombra com o paraíso: beleza, saúde, inteligência, força. Nos diz, a pleno pulmões: - Todos os discursos morreram, apenas as palavras em pura enteléquia greco-clitoriana flutuam no mar aberto; como não podem se afundar nem se salvar, piscam os olhos para nós, maldosas, implorando modelo, teoria, poesia, corpo de linguagem.


Poema-volante


Um dos poucos poemas-volantes que se salvaram do período da ditadura. Foi levemente alterado pelo tempo.




O mar não está para peixe



O mar não está para peixe
O mar não está para navio
O mar não está para naufrágio
O mar não está para travessia
O mar está por um fio

O que é isso agora?

Resultado de imagem para awful dream


O que é isso agora?
Flor carnívora latejando
onde o coração outrora?
Anotações das coordenadas
exatas de terremoto 9,5 na escala Richter?
Ou apenas pequenos presságios no pantanal
implantado no  peito onde a noite
enfiará facas envenenadas na febre do sono?
O que é isso
que me desmorona?
O que não cabe em mim
me toma
me detona como pequeno demônio stalker
e já não sei se deliro
se durmo
ou se estou em coma.


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...