segunda-feira, 29 de maio de 2017

Pequena ascensão

Egon Schiele

















Pequenos planetas líquidos na pele
entre peito e pélvis
gotas de suor de sexo exausto
nas cinzas do corpo em êxtase
o cálice vazio
derramadas todas as intimas mentiras
do amor
no lençol de algodão egípcio
a chuva intensa lava a paisagem
na janela
e nós aqui dentro nos braços da preguiça
às três da tarde
delícia mais extensa
tão densa
que escapamos de nós mesmos
e ficamos suspensos
numa nuvem imensa
à deriva
a pulsação em descenso
o bom senso longe da vida.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Gaiolas e grades
















Gaiolas e grades,
cercas, palavras farpadas
matam homens e aves.

Atrito












Em atrito comigo
de mim me separo.
Comigo nada é seguro,
sem mim tudo é mais claro.

Osteopirado

François Robert
















Osteopirado

O fêmur mofado
fere a cartilagem
da minicartilha
de desintegração.

Na colônia de ossos,
onde há pouco
poros pulsavam
na urna do corpo,
alguém se anuncia:
my name is Bones,
James Bones.

Unimúltiplo

Cy Twombly




















Mais sacana que poeta,
mais iconoclasta que poeta,
mais Ho Chi Minh que poeta,
mais investigador que poeta,
mais filólogo que poeta,
em suma, apenas poeta.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Promenade
















Promenade

Corpo envolto em névoa
e fúria
movo placas tectônicas
tatuadas na pele
camadas de fotos aéreas
em infravermelho
folhas de silício e amnésia
- nada pulsa no radar.

Miro muros em ruínas
gravadas no náilon da pele
cargas de C4
acupuntura em pontos extremos.

Instalo
sensores de distância
e movimento
capazes de captar
o menor sinal de vida
em caso de ameaça de acordo
aciono o controle remoto.

Material refratário
à lua de camurça
sobre o campo de gencianas azuis
meu chapéu de nenúfar
camuflagem no câncer da paisagem de guerra
me conduz a ruas de resina
âmbar
entre eletroarmadilhas semáforos metáforas
ácidas
elipses selvagens
poemas comuns incomuns demenciais
em coma
e o holograma do que um dia chamamos
linguagem
sempre falha.

domingo, 7 de maio de 2017

Abraço no ar




















Queria tanto te dar o abraço intenso,
vivo,
desta gravura de Goeldi.
Como vivemos em hiatos,
lanço versos na noite baça
em bar de desídia imensa,
cadeiras de pernas tortas
em simetria com as vidas que sustentam,
a luzinha vermelha de São Jorge
acima do calendário de gostosas
no dia 23 de abril,
o samba em volume máximo
espalhando ausências
sobre dezenas de camicases
chapados,
náufragos imersos em introspecção etílica
entrecortada por acessos de risos incontroláveis,
meu diabetes na estratosfera..
A taça à espera do nome
capaz de unir todas sílabas do teu corpo
cai da minha mão
ainda cheia.

sábado, 6 de maio de 2017

Dylan Thomas














Poema de Dylan Thomas traduzido por Augusto de Campos.

E a morte não terá domínio

E a morte não terá domínio..
Nus, os mortos hão de ser um.
Com o homem ao léu e a lua em declínio.
Quando os ossos são só ossos que se vão,
Estrelas nos cotovelos e nos pés;
Mesmo se loucos, hão de ser sãos,
Do fundo do mar ressuscitarão
Amantes podem ir, o amor não.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Sob os turvos torvelinhos do mar
Os que jazem já não morrerão ao vento,
Torcendo-se nos ganchos, nervos a desfiar,
Presos a uma roda, não se quebrarão,
A fé em suas mãos dobrará de alento,
E os males do unicórnio perderão o fascínio,
Esquartejados não se racharão.
E a morte não terá domínio.

E a morte não terá domínio.
Os gritos das gaivotas não mais se ouvirão
Nem as ondas altas quebrarão nas praias.
Onde uma flor brotou não poderá outra flor
Levantar a cabeça às lufadas da chuva;
Embora sejam loucas e mortas como pregos,
Testas tenazes martelarão entre margaridas:
Irromperão ao sol até que o sol se rompa,
E a morte não terá domínio.

1933
.

And death shall have no dominion
And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

1933

In Poesia da recusa. Organização e tradução Augusto de Campos.. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Colapso temporal




















Colapso temporal

A edade vae apagando teclas
tochas
pernas
neurôneos
só não silencia aeromemória em ruínas
insultos de amadas antigas
demôneos

A edade vae apagando
estrelas
caem do oco da imensidão do caos
em expansão.


Googlicerina

Deserto líbio













Googlicerina

Todo excesso
também é um deserto.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Os vacilões não têm vacina contra os vilôes














Os vacilões não têm vacina contra os vilôes

Não repetirei nessa não caio
Não caio mais nessa não vou repetir
Nessa não caio não vou dizer
Conta outra essa é muito velha
Não vou repetir nessa não caio
Nem nessa nem naquela mais velha
Porque caio sempre caio na mesma
Não vou cair nessa nunca mais
Vou repetir nessa não caio até
Não poder escrever mais que
Nessa não caio não vou cair outra vez

conta essa esta aquela outra que caio

Arruinaçao

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Arruinaçao

Impaciente caixa vazia
me perguntou
da última prateleira da estante:
— Se não consegue sequer guardar
tantos escritos inúteis,
como conseguirá arrumar a vida?
Um poema meio encapetado
do centro de folha gasta pelo tempo
respondeu-lhe indignado:
— Só a morte deixa a vida irretocavelmente arrumada

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...