Peso














Abro a porta,
a maçaneta fica na mão.
O cheiro de cigarro barato
clareia o corredor às escuras.
Nenhuma correspondência
na caixa de correio,
sepulcro de ausências,
só folhetos de outra vida
e de pizzas em promoção.
A calça quase caindo.
O fio do interfone pendurado
em gritos infantis
me avisa que o fim está próximo.  
Passo pelo jardim
Infestado de gatos medrosos
e arbustos quase mortos.
Do muro do condomínio
vejo o assalto no ponto de ônibus,
só então posso tentar a sorte
sob o céu de pipas inclementes.
Pocket de Rimbaud no bolso.
Não tenho aonde ir.
Não posso voltar.
Não posso ficar.
Subo a passarela sobre a linha
do trem
que nunca irá passar.
Do outro lado
talvez algum beco
me conduza ao paraíso
antes que a polícia.
A vida tá pesada demais,
a cada passo
cai uma montanha de minha cabeça
onde outra montanha cai.

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