domingo, 30 de abril de 2017

Convício




















Convício

A pele, impura membrana de estrelas
em órbita na estreita robô-rotina,
tangencia a primeira letra
de seu nome.

Sem o amargo de suas palavras
— puro esplendor de flores ofensivas,
seiva envenenada de rancor  —
como posso me equilibrar
neste bordel de deuses e demônios?

A mesma baba que odeia
explode de amor.

Desfaz-se de pânico e neblina
a memória do primeiro desencontro
em que ofereci à estrela nova adjetivos murchos,
léxico apagado de camelô de versos
obscuros na calçada de bas-fond cósmico
há vinte rotações elípticas.

Em nosso condomínio em área de risco
todos conhecem a coleção de nomes sujos, 
rajadas verbais de nomes mortais,
que minha Davi lançava como pedras
arremessadas em pedra de escândalo. .

A velocidade do afastamento
é proporcional à permanência
da atração suicida
entre mundos estranhos e hostis
que não se dispensam
nem a anos-luz de ausência..

Homem, mulher, Deus, universo,
tudo o que existe é incompleto.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Sufoco
















Sufoco

área de caça
o cerco
aperta o peito
próximo
à lua baça
caída
do alto do poste
na grande poça
no meio do beco
espelho negro
água suja
mínimo lago
onde  os sonhos
não têm passagem

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Na estrada de Damasco
















Na estrada de Damasco

Ínvios caminhos
atravessam
a planície devastada.
Vão de cidades mortas
a ruínas impressas.
Nímio alfabeto
em mãos ávidas e exímias
escreveu o avesso do excesso.
Ao longe
montanhas inalcançáveis
acenam com vagas esperanças
em off,
mas a fé,
convertida em mina de ouro,
já não consegue movê-las.

O declamador de tautologias



O declamador de tautologias 


ator/doar-se
ator/doer-se
ator/danar-se
gesto esculpido
no gelo
da plateia
frente a frente
ao furacão
olho no olho
da fera
até que a faca
corte o verso
no grau extremo
da febre
que não consegue
contaminar de poesia
poltronas
que de tão ocupadas
parecem tão vazias

A última esperança da Terra














A última esperança da Terra

Os rinocerontes virão da África,
atravessarão o Atlântico,
sairão em Niterói
e seguirão pela BR
rumo a Brasília.
Vão demolir
instituições,
leis,
palácios.

Os rinocerontes de plástico são a nossa última esperança.


MPA - Movimento dos poetas anônimos











MPA - Movimento dos poetas anônimos

De cismar à noite olhando as estrelas
decadentes das mulheres da vida
tropecei numa lixeira abóbora,
caí, bati com textos inéditos no chão
de minha cabeça opaca no meio da praça.
A abóbada guardou suas vértebras,
envergonhada, acima dos arranha-céus.

Eu, de alma suja e corpo exausto,
levantei acelerado a lua derramada.
Como insaciável assassino invisível
na contramão, na contraluz, ao léu
continuei contrabandeando poesia
em flocos, em pó ou em bolinhas de papel.


O grande desastre antiaéreo de ontem

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O grande desastre antiaéreo de ontem

Ela na garupa
tremia
na chuva
(gosto de moto
com o coração
aos pulos
na curva,
joelho
rasgando
a faixa amarela),
por isso
a letra da canção
desestabilizava
verdades
a 120 km/h.

Os gritos
no retrovisor
não captaram
veículo
imprevisto
na contramão.

Dois capacetes
rolaram
o horizonte
no asfalto.

Sete haicais de outono

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Sete haicais de outono

Digo ao outono:
“Não aguento outro inverno.
Calma, devagar”.

Árvores sem aves,
outono fora do tom.
Rio canta sujo.

No chão de abril
folhas caídas. Nos galhos
renova-se a vida.

Paz, repouso, pássaro.
Tumulto ao redor do canto.
Harmonia no centro.

As folhas do outono
caem sem vida no corpo
que cai ano a ano.

A chuva de outono
não molhou onde devia.
Um coração seco.

Uma folha ocre
corre no outono à toa.
Nossa vida voa.


Odilon Redon, O ovo


Quimono floral

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Quimono floral
rasgado. O tatame dói.
Três malas e adeus.

A outra morte do lovesomem

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A outra morte do lovesomem

Tantas vítimas
deserdadas ao luar,
inertes na cama
nas garras da demora ,
loucas por um lobo
cuja gula acaba
em noite de gala.

Dessa vez o lovesomem
teve mais sorte.
Nas mandíbulas
nacos de poemas
em carne viva
provavam
a mais doce das mortes.

Café turco



Café turco

Vaticino para você
no balé da borra
de café
o m em desarmonia
(uma perna maior
que a outra)
na xícara trincada
significa
(o risco ao tocar
o fundo)
múltipla falência das palavras
e essa linha que escorre
transversal
 à única perna
que permitiria sustentar
a sorte no amor
corresponde
à falsa mão que te socorre
para melhor ferir
as tuas costas.

Não chore, senhora,
pelo preço dessa consulta
só posso lhe antever o inferno.

sábado, 22 de abril de 2017

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Bom dia, imperador

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Bom dia, imperador

Xícara de café na toalha
de tantas manchas  lavadas
em vão.

Uma cadeira ocupada,
todas as outras vazias.
Metáfora suicida
da vida em língua imperativa
igualmente vazia.
Fatia de falta de afeto
do pão mofado.

Pesa nos remendos
de tanto mando e desmando,
a xícara ainda quente.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Barraco




Barraco


Atirou-me na cara
pronomes possessos
aos berros,
inventou adjetivos
histéricos
audíveis a toda a vizinhança,,
cortou minha desculpa esfarrapada
com a faca de advérbios
de extermínio,
golpeou meu batom na cueca
com substantivos carnívoros
terminados em a,
disse que também
vai conjugar outros verbos
na cama.

Desertossauro rex












Desertossauro rex

versão plástico azul

O tédio dos herbívoros
os alimenta,
fora a noite e nuvens de insetos
ao alcance de línguas bífidas.

A couraça proporciona
ao corpo
distância e antivírus
repleto de lacunas.
Sempre a salvo de proteção
insensata
por fissuras
retinianas,
atentas antenas capazes de captar
pecados em promoção,
e.g.:
aquelas coxas cor de canela
expostas
num banco de ônibus
para ataques do miocárdio.

versão plástico verde

Olhos tão diminutos
espantam paleontólogos.
“Talvez não quisessem
enxergar”,
afirmou Jack Zimmerman,
“o circo afundando
sob o impacto do meteoro
interrompendo o número
dos mamutes amestrados”.

Anita McKinley
advoga outra hipótese:
“Tudo o que não queriam ver
era a interminável fila
do lado de fora do restaurante
onde não havia cadeiras vazias
e se comia com muita preguiça
gordas porções de indiferença”.

versão plástico ambarino

Não há mínima imponência
na criatura jurássica
sentada no meio fio.
A madrugada morta
levanta uma lua de âmbar,
flor de resina
brilha atrás do vidro da vitrina
bem abaixo do cartaz amarelo
LIQUIDAÇÃO.

Latinhas de cerveja
fazem água do sonho predador.

Apagamento

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Apagamento

paz
por afogamento

alcançar
o Nirvana
por inércia

cair
da terceira sílaba
da palavra
eu

decepção,
o verbo decepar
em todos os modos do futuro

especular
olho explodindo espelhos

a noite
            ser
em branco


Aonde foi Carol?

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Aonde foi Carol
cachos de uvas
nos seios
e a chuva?
Aonde descalça
camisola de meias-luas
sem sombrinha
mas cheia de sombras?
Aonde foi Carol
após o terraço
após um torpedo
ampliar a miopia
de suas retinas tortas
e a porta da rua
aberta ao mau tempo?
Aonde foi Carol
que não volta
da rota de pesadelos
e a cama para sempre
desfeita?

As palavras

Nenhum texto alternativo automático disponível.


As palavras,
todas,
puro contrabando.
A língua,
alfabeto de impurezas,
brilha,
inteira,
no quarto escuro
dos desejos.
Do carbono
de anos tatuados
de abandono.
ao diamante
do amor mais intenso,
tudo pulsa no poema.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Peso














Abro a porta,
a maçaneta fica na mão.
O cheiro de cigarro barato
clareia o corredor às escuras.
Nenhuma correspondência
na caixa de correio,
sepulcro de ausências,
só folhetos de outra vida
e de pizzas em promoção.
A calça quase caindo.
O fio do interfone pendurado
em gritos infantis
me avisa que o fim está próximo.  
Passo pelo jardim
Infestado de gatos medrosos
e arbustos quase mortos.
Do muro do condomínio
vejo o assalto no ponto de ônibus,
só então posso tentar a sorte
sob o céu de pipas inclementes.
Pocket de Rimbaud no bolso.
Não tenho aonde ir.
Não posso voltar.
Não posso ficar.
Subo a passarela sobre a linha
do trem
que nunca irá passar.
Do outro lado
talvez algum beco
me conduza ao paraíso
antes que a polícia.
A vida tá pesada demais,
a cada passo
cai uma montanha de minha cabeça
onde outra montanha cai.

Píndaro (c. 552-448 a.C)




















A noite caiu e trouxe este poema de Píndaro (c. 552-448 a.C) via Péricles Eugênio da Silva Ramos. Não sei se foi o outono que o trouxe ou a lembrança da epígrafe de Píndaro em “O mito de Sísifo”, de Camus, “Ó minha alma, não aspires à vida imortal, mas esgota o campo do possível”, viva desde a adolescência.

A sorte dos mortais
cresce num só momento;
e um só momento basta
para a lançar por terra,
quando o cruel destino
a venha sacudir.

Efêmeros! Que somos?
que não somos? O homem
é o sonho de uma sombra.
Mas quando os deuses lançam
sobre ele a luz,
claro esplendor o envolve
e doce é então a vida.

Com o verbo à flor dos nervos

Raffie Davtian - The Evolution of the Angel in Line with the State of Exception, 2011





















Com o verbo à flor dos nervos

Se o normal é isso,
o possível,
o razoável,
a justiça,
a cultura,
a governabilidade,
a sociedade,
quero o absurdo,
o insensato,
o camicase,
o serial killer,
o homem-bomba,
o meteoro,
o inferno,
o fim do mundo. 

Travada

Takashi Fukushima




















Relógios queimam os minutos
no pulso,
acendem um olhar de alarme
na fumaça que sobe do corpo,
onde o tempo é cremado,
para a memória,
onde a vida não se guarda.
Não se pode ver em detalhes
a flor e a perda de pétalas
fugazes
segundo a segundo,
apenas flashes.
A memória trava.
O coração trava.
A língua trava.
Já não ficamos na ponta dos pés.

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...