domingo, 12 de março de 2017

Aimé Césaire





















Sol serpente

Sol serpente olho a fascinar o meu olho
e o mar piolhento de ilhas explodindo nos dedos de rosas
lança-chamas e o meus corpo intacto de aniquilado
a água exalta as carcaças de luz perdidas na garganta sem pompa
turbilhões de gelo coroam o coração enfumaçado dos corvos
nossos corações
é a voz de raios domados a girar sobre seus gonzos de lagarto
transmissão de sáurios* à paisagem de vidros quebrados são
as flores vampiras no lugar de orquídeas
elixir do fogo central
fogo justo fogo mangueira de noite coberta de abelhas meu
desejo um acaso de tigres surpresos nos enxofres mas o despertar
estanhoso revela jazidas infantis
e o meu corpo de seixo comendo peixe comendo
pombas e sonos
o açúcar da palavra Brasil no fundo do charco

* No original, “anolis” – um gênero de lagartos comum às florestas tropicais da América Central.

* * *

Soleil serpent

Soleil serpent œil fascinant mon œil
et la mer pouilleuse d’îles craquant aux doigts des roses
lance-flamme et mon corps intact de foudroyé
l’eau exhausse les carcasses de lumière perdues dans le couloir sans pompe
des tourbillons de glaçons auréolent le cœur fumant des
corbeaux
nos cœurs
c’est la voix des foudres apprivoisées tournant sur leurs
gonds de lézarde
transmission d’anolis au paysage de verres cassés c’est
les fleurs vampires à la relève des orchidées
élixir du feu central
feu juste feu manguier de nuit couvert d’abeilles mon
désir un hasard de tigres surpris aux soufres mais l’éveil
stanneux se dore des gisements enfantins
et mon corps de galet mangeant poisson mangeant
colombes et sommeils
le sucre du mot Brésil au fond du marécage.

In Les armes miraculeuses

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