Pane em vermelho

Egon Schiele



Pane em vermelho

a massagista vietnamita saiu com os cabelos enrodilhados de fumaça da sala de alta voltagem onde madrugada cardíaca amanheci meio morto de ciúmes no cume de bebedeira pontilhada em todos os bares do lado esquerdo da rua deserta

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eletro/rosa/choque ventrículos aurículas veia cava cova aorta artéria infestada de damas das camélias aurélias blanches de bois mimosas madames pompadour girls a-go-go-niadas entre neón e fumaça o cabaré em sístole e diástole o sexo em débito automático a vida em vermelho

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três odaliscas enfermeiras no plantão alucinógeno tenda árabe de oxigênio hollywoodiano as roupas do impaciente no chão como rosas ulceradas aliens com olhos de mulheres-bombas avançam injeções em nuvens de palavras inaudíveis intoxicadas por radioatividade e sintaxe

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aparelhos de tortura medem a pressão peniana o corte dos pulsos as marés da bolsa escrotal os resíduos e impurezas no fígado na infância a curva ascendente de erros a extensa malha de tombos cicatrizes no couro do rinoceronte enjaulado corpo entubado planeta permeado por sondas perfuratrizes pernas mecânicas e moscas, sempre moscas

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parecer do cirurgião-chefe: causa perdida putrefação completa da massa encefálica em estado comatoso de poesia falência múltipla de todas as saídas abraços mofados beijos infectados de solidão anacronia sarcasmo mania de mundos perdidos e Inês é morta uma extensa corrosão do tecido futuro com irradiação à glândula pituitária não há mais nada que a medicina possa fazer a não ser desocupar o leito

Publicado no livro Fora de forma & outros foras, Ibis Libris, 2015.


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