Os dias que não virão

Desenho de Federico García Lorca























Vindo de ruas com engarrafamento e amnésia
entro num bar de esquina,
balcão ardósia, bancos de madeira,
em frente à praça meio morta.

Eletrocarroças seguem sinais,
placas,
apitos
na larga e suja placenta
da cidade fora de trilhos.

Eu sigo a líquida trilha de copos
baratos e mal lavados,
transbordando lapsos,
tropeços,
abraços.
memórias suicidas.

Então ela atravessa a porta
como quem fez um pacto,
rasga todas as cláusulas pétreas,
silencia fofocas e torcidas de futebol,
atropelas regras de convivência,
derruba pilhas de pecados
na pista derrapante
dos meus desejos.

Devastado e sedento,
não encontro em nenhuma garrafa
goles suficientes.


Quando a intrusa se retira,
em movimento de perversa displicência,
entra na alma a faca cega,
miseravelmente cega,
dos dias que não virão.


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