segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Braçadas

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Adriana Varejão













Afo
gado
em es
pumas
negras
corpo
de pantera
nada
rumo à outra
mar
gem 

do fim de tudo

Ondas

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Ondas,
líquidas leoas,
me tomam por presa.


Escrever

Flávio Shiró



Escrevereescrevercravarsemverrnemcrerescreveratéesbagaçarocrânioânimoânimaescrevoarescraviolarescrevertebrarescrevertiginarseescrenvenenarseescriturascriptaescrepuscularseescreversepultarseescritaantiescrotidãoescreviolentarescritamorescritaescritotalentreguasemregrasescrevibrarescreviveratéque


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Elegia aos poemas mortos em acidentes de trânsito

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Lygia Clark















εἰρωνεία
ironia
ironícone
onírico
Iron man
clone
de papel
vem a chuva
em Tombstone
ironanista
com a boca
no trombone
cheio de Y
ironicósmico
ironicômico
alguém
abriu o verbo
ironiconfuso
para um poema
faltam
dez parafusos.


Efeito placebo

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Pab lo Picasso




















Efeito placebo
todo beijo
movido a passado.




Doppelgänger

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René Magritte





















Boa noite
Sr. Golyádkin,
também
me chamam assim.

Somos sombras
cúmplices,
vacilantes,
falhas em duplicata.

Por favor,
vista o casaco,
aperte a minha mão
e o passo.
Não faça
essa cara de espanto
nem me desaponte
com seu desdém.

Vamos vagabundear
por São Petersburgo
em carruagem de cavalos de Kazan
digna do tsar.
Atravessaremos
a ponte Izmáilovski;
Clara Olsúfievna
nos espera
vestida de versos franceses.

Não, amigo,
não há mais bailes aristocráticos.
Breve estaremos na neve
da avenida Niévski,
comemoraremos a morte
do Grande Inquisidor
no cabaré Príncipe Míchkin.


Dístico isotônico

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Entre adrenalina e naftalina,
distância mínima.


Dê um rolé
















Dê um rolé

A constituição
ficcionaliza o direto de ir
e vir
a tomar porrada
graças à letra da lei
que reza que
ir é direito
de gente pé-rapada
à cela
ou à cova mais próxima.

Os sem nada
só podem vir
a tentar à sorte
em facção armada,
igreja pentotal,
bundalelê
ou Mega-Sena.

Felizmente
há zona eleitoral
eletrônica
regada a dólares
e caixa dois
para sustentar
pena de morte
e invisibilidade
à periferia.


Os pobres
excedem a medida
de nossa democracia.


Armada

Almeida armada of 1505 (Livro de Lisu arte de Abreu)
















Armada

     “No mar tanta tormenta e tanto dano,
     Tantas vezes a morte apercebida!
     Na terra tanta guerra, tanto engano,
     Tanta necessidade avorrecida!
     Onde pode acolher-se um fraco humano,
     Onde terá segura a curta vida,
     Que não se arme e se indigne o Céu sereno
     Contra um bicho da terra tão pequeno?”

            - Camões


Vou em navios
na névoa
cinérea.

A lua
afunda
em ondas hialinas
chegadas
e quimeras.

Nau capitânia
em encapelado mar
azul-violeta,
vela mestra
fora do ar
saturnino,
apenas tempestade
& barris de rum
no convés.

Cento e um navios
a mil milhas
da ilha fantasma mais próxima.

Nautas com asas
no mar de águas pesadas
levados por ventos alísios
contra a muralha do destino
e suas líquidas emboscadas.

Chegar pouco importa.
Vale ver os navios
ainda vivos no fundo
do desvio para o fracasso
em velhas viagens.

A rota de infortúnios
armou uma frota de naufrágios
no leito azul de Netuno.


Tudo o que se diz

Isabel Pons



Tudo o que se diz
vai muito além dos limites
das palavras vivas.


As sílabas voam

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As sílabas voam,
lançam o poema no ar.
Sem pista de pouso.




Aríete na porta

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Aríete na porta
de íntima fortaleza.
A cidade entregue.

Desejo na carne




Desejo na carne;
o corpo se abre ao que
a língua não sabe.


A paixão completa




A paixão completa:
dois cones de silicone,

prótese no pau.


Corpo em espera




Corpo em espera

na longa noite lacunosa.
Teclar outro número.


Coruja no galho




Coruja no galho
extremo da madrugada.

Um pio corta a lua.


Corpo a corpo

Gustav Klimt




















Corpo a corpo

esconjurar
os dias em comum
as migalhas
espalhadas no chão
no sofá
no tapete
cujas flores orientais
pereceram
à espera
da paz impossível

Palavras
expurgadas
de paixão
impartilhável
muito mais pesadas
mais impiedosas
do que os golpes
baixos
na mínima memória
da intimidade
sob nuvens de desconfiança


Round a round
exaustos
até cairmos abraçados
à espera de desforra.


Como disse Cartola: “disfarça e chora”





















Como disse Cartola: “disfarça e chora”

Volto à meia hora
antes de o giro da chave
lacrar a porta
no final do corredor do 7º andar.

Não sabia
que o coração
sairia
rolando as escadas
porque o peso das palavras
ultrapassava
os limites do elevador.



sábado, 25 de fevereiro de 2017

A caminho do deserto

Mark Rothko




















A caminho do deserto

petrificado o mel
pela gosma
que escorre dos dias,
nada adocicada
a cicatriz
por baixo dos panos
com os quais se abafa
o pólen da língua
sem flora

abelhas
- sílabas suicidas -
caem como moscas
em flores artificiais

aliterações climáticas
ampliam a camada de cesuras
na putosfera

rimas deixarão em ruínas
a crosta terrestre

e você me pergunta
o que isso significa?
olhe ao redor
e me diga
quanto tempo durarão as ariranhas,
os tamanduás,
as formigas.


14 haicais após a meia-noite



















14 haicais após a meia-noite

Uvas, maçãs murchas,
cachos de canções absurdas.
Amor e rusga.

Água na moringa,
irrigar a língua líquida
com grafias em febre.

As águas do rio
cantam para disfarçar
a vida que foge.

As sílabas voam,
lançam o poema no ar.
Sem pista de pouso.

C no céu, a Lua,
curva letra do alfabeto
entre as estrelas.

Velho passarinho
no galho mais alto. O azul,
ninho infinito.

Um sol tangerina
faca de brasas em casca
corta gomo a gomo.

Talvez amanhã,
agora, quase ou nunca,
o amor, a aurora.
Linhas retas não
geram luas, vidas, galhos.
Os ovos são curvos.

O cravo e a rosa
porfiam. Aromas farpados
ferem a poesia.

Menina com vaso
em brasa. Quem virá à noite
irrigar a flor?

Os corpos colados
nos degraus da madrugada
sacodem a lua.

No chão de abril
folhas caídas. Nos galhos
renova-se a vida.


O dorso do gato
sumiu no beco às escuras.
Escarcéu felino.



Carnoswald



Carnoswald


As minas da gare
peladinhas
peludinhas
caíram na gandaia.


Baticum

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Baticum


Basta
um tambor
para ínfimo farol
se acender
no peito.


Sete haicais

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A lua alta e nua
anula as sombras - no céu
gira luz redonda.

Vulto sem asas
o uirapuru de plástico
e pilha. Pilhagem.

No muro pichado
preguiçosa lagartixa
espicha o rabo.

Acesa a palavra
mais áspera, buscar água
de apagar as mágoas.

Soltar o verbo,
os cachorros, os demônios;
voar na língua solta.

Planície com nervos
a pele que você pisa,
pista de mil erros.


Gosto de ver
a pulsação que se ouve
no teu decote em V.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Perdido na pista



















Perdido na pista


Na calçada
mas nas nuvens
fora de linha
a caminho
de não me lembro
mergulho no nome impossível
enquanto carros buzinam
no engarrafamento
passagem lacrada
à fantasia
as pessoas normais prontas
para a carnificina
largos passos aéreos
me salvam de insultos
rótulos
enquadramentos
penso em algum poeta morto
em acidente de carro
no colo de velha professora de piano
ando em círculos, é verdade;
a dança ritual
dos que se despedaçam em palavras.


Canto extinto

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Canto extinto

Santificados
os que te dizimaram
com fé e varíola.

A pátria
apaga tuas terras
com a gula dos agiotas.

Em alguma narrativa oficial,
acadêmica,
nas linhas da prosa pétrea
etc & tal
medalhas e autocomplacência.

Chamam a matança
de tua gente
"páginas do desenvolvimento
nacional".

Metafísicos da terra de Oz
cospem verdades cósmicas
"os índios vivem em nós".

Difícil segurar a ira
ou o riso.


Poucas flechas,
tantos cafajestes.


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...