domingo, 15 de janeiro de 2017

Murilo Mendes



  


Um livro cuja leitura me impressionou muito foi  As metamorfoses,  de Murilo Mendes, que li numa edição da Record, de 2002, com um revelador prefácio de Fábio de Sousa Andrade. A obra divide-se em duas partes: “As metamorfoses”, com poemas de 1938, e “Véu do Tempo”, com textos datados de 1941. 

O título ovidiano aponta para uma marca profunda  no autor de ConvergênciaTempo espanhol e tantos outros livros essenciais: uma inquietação permanente que o leva a um alargamento do seu universo poético tanto no aspecto imagístico e temático quanto no aspecto formal, numa apurada linha de pesquisa estética. 

Gosto dos abismos e das tentações expostas em seus textos, dos pianos flutuando em seus versos, das mulheres que escapam ao descritivismo realista e acendem desejos secretos. A poética muriliana parece traçar um risco no caos, escrita forte o suficiente para nos deixar flutuando em estado de deslumbramento. Uma poética em expansão apoiada sobre uma força visionária, capaz de potencializar a face católica com todas as impurezas pecaminosas.  Também me agrada muitíssimo o ato de confrontar o tempo com imagens poderosas como se fosse possível rasgar o tecido temporal e saltar para o aberto – a arte como fuga para a eternidade, sem silenciar, no entanto, o espanto com a crueza insuportável da história. Poeta de nuvens, longe de ser um nefelibata, mas sim pela altura do seu voo lírico e onírico. Precisamos ler com mais carinho e profundidade Murilo Mendes, que nos deixou no título de um de seus livros e em toda a sua obra poética uma divisa que vale para qualquer texto poético: POESIA LIBERDADE.

Todos os poemas foram retirados do livro citado acima. As ilustrações são do grande amigo de Murilo, o pintor Ismael Nery (1900-1934).

José Antônio Cavalcanti


POEMAS




Ideia fortíssima

Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.

(p. 29)



O poeta futuro

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de anta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

(p. 34)




Corrente contínua

Decifremos o código da Criação.

Há um telégrafo surdo
De rosa a rosa, de pássaro a pássaro, de estrela em estrela.

Assaltam-me todos os sonhos
Que existiram desde o princípio do tempo.
Meus braços acolhem migrações de sereias.

Sou um campo onde se decide a sorte dos fantasmas.
Não me podes dispensar, crescimento do mito:
É preciso continuar a trama fluida
Pela qual Lilith, Ariadna, Morgana receberão o alimento.

Vinde beber no meu peito,
Cavaleiros andantes e volantes deste século,
Mulheres sem asilo, corações mutilados, Antígona.
Ó vós todos que temeis a força da matéria,
Comparsas de ópera, musas desprezadas dos poetas,
Nuvens anônimas: procurai minha sede.

(p. 35)


 


O espectador

Eu me envolvo numa nuvem e suscito os fantasmas
Para a inquisição dos vivos que destroem a poesia.

Que fazes de tuas mãos criadas para a oferenda,
Que fazes de teus olhos, comunicantes da estrela,
Que fazes da tua boca talhada pra receber o Verbo?
Profanas teu corpo e impedes o crescimento de tua alma.

Convocas o demônio das cidades malditas,
Semeias pólvora e máscaras contra gases mortíferos.
Que esperarão um dia teus filhos,
Que dura e tenebrosa herança tu lhes deixas...

Ó meus irmãos, travestidos de homens
Dançais a dança do aniquilamento,
E não ouvis o alto coro dos pobres e dos nus,
Ó meus irmãos, criados à imagem e semelhança de Deus.

(p. 42)





Estudo nº 4

Quando se acalmará
Esta doença fértil a que chamam Vida?
Não quero soletrar o horizonte
Nem seguir o desenho da onda na areia,
Nem quero conversar flores no campo idílico.
Quero antes correr a cortina sobre mim mesmo,
Transcender minha história
E esperar que Deus remova meu corpo.
Quero tudo, ou nada:
Todas as paixões, todos os crimes, delícias e propriedades.
Ou então mergulhar num saco de cinzas,
Montar num avião de fogo, e nunca mais descer.

(p. 43)




Revelação

A dona da cidade maldita
Penteia os cabelos no relâmpago.
Ó filhos morenos dos mares do sul
Que vos suicidais pelo seu olhar,
Sou vosso cúmplice e vosso irmão:
Somos todos sua vítima.

Que nos adiantam os pianos
E os clarins marchando na manhã?
Espero o fogo, o fogo sobre nós.
Quem troca seu corpo por um pão?
Pedimos água e nos dão veneno.

A dona da cidade maldita,
Lilith, anda solta ao microfone.

Que à sua voz caiam os muros da cidade
E os cães da febre a devorem.
Queremos a visão branca, imaculada,
Para quebrar o espelho de demônio.

(p. 47)




Fim

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
Tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso presto assistir ao fim do mundo
Para saber o que Deus quer comigo e com todos
E para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
Ouvir os coros imensos,
As lamentações e as queixas de todos,
Desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
Eu existo para a visão beatífica.

(p. 56)





Aerograma

Viver triste, asfixiado,
Uma eternidade vermelha,
Na tua boca de concha,
Suspenso entre céu e mar.

Colher pássaros no peito,
Soletrar as nuvens calmas
Esperando o raio agir
No limiar do filho pródigo.
Filtrarei um dia os séculos
Que se acumulam no olhar
Até que a pedra suspire
Os segredos da atmosfera.

Sementes de pianos crescem
Pra órfãos que sobem escadas,
Ao passo que peixes azuis
Bebem no oceano do poeta.

(p. 62)




Estudo para um caos

O último anjo derramou seu cálice no ar.

Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do céu em quatro partes:
Instintivamente eu me agarro ao abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.

(p. 67)




A criação e o criador

O poema obscuro dorme na pedra:

“Levanta-te, toma essência, corpo”.

Imediatamente o poema corre na areia,
Sacode os pés onde já nascem asas,
Volta coberto com a espuma do oceano.

O poema entrando na cidade
É tentado e socorrido por um demônio,
Abraça-se ao busto de Altair,
Recebe contrastes do mundo inteiro,
Ouve a secreta sinfonia
Em combinação com o céu e os peixes.

E agora é ele quem me persegue
Ora branco, ora azul, ora negro,
É ele quem empunha o chicote
Até que o verbo da noite
O faça voltar domado
Ato pó de onde proveio.

(p. 75)


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