quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Paul Celan






Um dos meus livros prediletos é Cristal, de Paul Celan (1920-1970). edição bilíngue da Iluminuras, lançada em 1999, com seleção e tradução de C9audia Cavalcanti.
Foi lendo Celan que Adorno pôde rever a descrença na possibilidade de poesia após Auschwitz: “A dor perene tem tanto direito à expressão como o torturado ao grito: por isso pode ter sido errado afirmar que não se pode escrever mais nenhum poema após Auschwitz”.
Dele extraí estes sete poemas. A tradução é de Claudia Cavalcanti.

Resultado de imagem para Cristal, Paul Celan



Cristal

Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.  
  
Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.


Errático  

As noites se fixam
sob teu olho. As sílabas re-
colhidas pelos lábios — belo,
silencioso círculo —
ajudam a estrela rastejante
em seu centro. A pedra,
um dia perto da fronte, abre-se aqui:
ante todos os
espalhados
sóis, alma,
estavas, no éter.

* * *

Ilegibilidade deste
mundo. Tudo em dobro.

Os fortes relógios
dão razão à hora cindida,
roucos.

Tu, presa nas tuas profundezas,
somes de ti
para sempre.

***

Nos rios ao norte do futuro
lanço e que tu
hesitante carregas
com sombras escritas por
pedras.

***

Estar, na sombra
do estigma no ar.

Para-ninguém-e-nada-estar.
Irreconhecido,
para ti
somente,

Com tudo o que lá dentro cabe,
mesmo que sem
fala.





Corona

Da minha mão o outono come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo volta à casca.

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca fala a verdade.

Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio-sangue da lua.

Ficamos entrelaçados à janela, eles nos olham da rua:
está na hora de saber!
Está na hora da pedra começar a florescer,
de um coração golpear a inquietude
Está na hora de ser hora.

Está na hora.

***

Quando me abandonei em ti,
eras pensamento.

algo
murmura entre nós dois:
do mundo a primeira
das últimas
asas,

em mim cresce
a pele sobre
tempestuosa
boca,

tu
não chegas
até
ti.



Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...