Laura Riding

























A METADE IMPRONUNCIÁVEL DA QUIETUDE

Alberto Pucheu *

Laura Riding, poeta-filósofa que percorre a linguagem no movimento indizível
de seus interstícios

Há poetas que escrevem com o sangue; outros, com o coração; há aqueles que escrevem com o cérebro; alguns, que o fazem com os nervos; há quem escreva com a visão, com os ouvidos, com as pernas, com a respiração... Laura Riding escreve, sobretudo, com o pensamento, admirando-se com o que escapa dos olhos e dos sentidos.
Seus poemas são a ocasião de superação da instituição literatura por uma linguagem que, imediatamente, toca a vida intensiva, confundindo-se a ela ao mostrar uma compulsão suprema pela força impositiva do movimento criador contra qualquer possibilidade inercial que teime em querer se fixar.

De tempos em tempos, ela recomeça com um novo nome, que não é, primeiramente, um nome próprio da autora, mas, a cada vez, um apelido, poético, direto de vida: Laura Reichental, Laura Riding Gottschalk, Laura Riding, Laura Jackson, Laura (Riding) Gottschalk... O impessoal buscando se intrometer pelo pessoal, inventando, neste, novos deslocamentos, rumos inaugurais e passagens constantemente abertas. Como em um de seus belos poemas: “O vento sofre de soprar,/ O mar de seu aguar,/ E o fogo de arder,/ E eu de ter um nome.// Como pedra sofre de pedrosidade/ Como luz de luzidade,/ Como pássaros de asidade,/ Eu sofro de identidade”. Tal sofrimento por saber que um nome identitário é a crença em uma realidade individual (fingidamente estanque, ainda que necessária) leva a poeta a realizar uma “tragédia da simesmidade”. O sobrenome Riding, inclusive, com o qual Laura ficou mais conhecida, é uma pura invenção legalizada por ela em 1925.

“A verdade começa onde a poesia termina”

Uma luta, portanto, com a afirmatividade do pensamento, contra a força reativa da fixidez, fazendo com que a poeta não habite exatamente as palavras, mas percorra a linguagem no movimento indizível de seus interstícios. Para ela, “a verdade começa onde a poesia termina”. Se, ao contrário do que, apressadamente, pode parecer, a poesia, sendo “uma palavra mentirosa”, é a atitude mais elevada do pensamento, aqui, a verdade, através da qual “só lhe resta olhar bem”, seria a força indizível que, no vazio atravessador de toda e qualquer experiência, faz a “vívida realidade de palavras” proliferar. Deixar a vida ser revivificada através da revivificação das palavras mentirosas, ficcionais ou artificiosas, transmitindo-a ao leitor, parece ser seu projeto: “Respirar palavras vivas (...); endereçar vivacidade/ nos olhos que lêem”. Não é à toa que Auden a chamou de “a única poeta-filósofa viva”.

O vínculo com Platão é grande e dos mais saudáveis, manifestando-se implicitamente ao longo de todo o percurso, como se ela tivesse aprendido o que fazer para permanecer na cidade filosófica. Enquanto, através de conceitos paradigmáticos tais quais, entre outros, o mesmo, o uno, o todo, o que atravessa, o ser e a idéia, a experiência platônica ajuda a tornar pensável o impensável e possibilita um sentido para o sem-sentido de onde provém, a poeta americana, consonantemente, num belíssimo poema, “Abrir de olhos”, escreve:

 “Mas e quanto ao sigilo/ Pensamento individido, pensando/ Um todo simples de ver?/ Essa mente morre sempre instantaneamente/ Ao prever em si, de repente demais,/ A visão evidente demais,/ Enquanto lábios sem boca se abrem/ Mudamente atônitos para ensaiar/ O verso simples e impronunciável”. Ou, em “Helena em chamas”: “Sua beleza, de que falamos,/ É só metade de sua sina./ Nada será revelado/ Até que as duas metades se cruzem (...)// Mas só contamos a metade, temendo saber tudo”. Trata-se de uma poesia filosófica, que, na metade dita, intensifica a metade impronunciável da quietude.

Críticos e poetas americanos comentam obra

É preciso saudar o poeta Rodrigo Garcia Lopes tanto pela sua tradução quanto pela introdução que acompanha o livro, muito bem pensada e situando, privilegiadamente, o leitor na respectiva poética. Somando-se a isto, ampliando a visão da americana que atravessou o século XX (1901-1991), bem menos divulgada do que muitos de seus pares e que, algumas vezes, parece se irmanar a S. Beckett e G. Stein, o tradutor organizou um fórum com críticos e poetas atuais americanos.

Uma das características dos poetas brasileiros que começaram a publicar nos anos 90 é a capacidade de atuarem em diversos níveis dos entornos interventivos da poesia: tradução, ensaios, resenhas, entrevistas, editoração. Traduzindo Rimbaud e Silvia Plath, publicando um excelente livro de entrevistas com pensadores contemporâneos da cultura americana, editando a revista de literatura “Coyote”, Rodrigo Garcia Lopes vem cumprindo, com mérito, este papel interventivo.






























POEMAS


OPENING OF EYES

Thought looking out on thought
Makes one an eye.
One is the mind self-blind,
The other is thought gone
To be seen from afar and not known.
Thus is a universe very soon.

The immense surmise swims round and round,
And heads grow wise
Of marking bigness,
And idiot size
Spaces out Nature.

And ears report echoes first,
Then sounds, distinguish words
Of which the sense comes last
From mouths spring forth vocabularies
As if by charm.
And thus do false horizons claim pride
For distance in the head
The head conceives outside.
Self-wonder, rushing from the eyes,
Returns lesson by lesson.
The all, secret at first,
Now is the knowable,
The view of flesh, mind’s muchness.

But what of secretness,
Thought not divided, thinking
A single whole of seeing?
That mind dies ever instantly
Of too plain sight foreseen
Within too suddenly,
While mouthless lips break open
Mutely astonished to rehearse
The unutterable simple verse.


ABRIR DE OLHOS
 
Pensamento dando para pensamento
Faz de alguém um olho.
Um é a mente cega-de-si,
O outro é pensamento ido
Para ser visto de longe e não sabido.
Assim se faz um universo brevemente.
A suposição imensa nada em círculos,
E cabeças ficam mais sábias
Enquanto notam a grandeza,
E a dimensão imbecil
Espaça a Natureza,
E ouvidos reportam primeiro os ecos,
Depois os sons, distinguem palavras
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas
Como por encanto.
E assim falsos horizontes se ufanam em ser
Distância na cabeça
Que a cabeça concebe lá fora.
O maravilhar-se, que escapa dos olhos,
Regressa a cada lição.
O tudo, antes segredo,
Agora é o conhecível,
A vista da carne, a grandeza da mente.
Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mundamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável.



























A KINDNESS
To be alive is to be curious.
When I have lost my interest in things
And am no more alert, alacritous
For fact, I’ll end this bated enquiry.
Death’s the condition of supreme ennui.

I shall permit me to disintegrate
And then, because I know the peace death brings,
It will be good to keep persuading fate
To be more generous, extending, too,
This privilege of boredom to all of you.

UMA GENTILEZA
Estar viva é estar curiosa.
Quando perder interesse pelas coisas
E não estiver mais atenta, álacre
Por fatos, acabo este minguado inquérito.
A morte é a condição do supremo tédio.

Vou deixar que me desintegre
E aí, por saber da paz que a morte traz,
Seria bom seguir convencendo o destino
A ser mais generoso, estender, também,
O privilégio do tédio a todos vocês.






























PRIDE OF HEAD

If it were set anywhere else but so,
Rolling in its private exact socket
Like the sun set in a joint on a mountain…
But here, nodding and blowing on my neck,
Of no precedence in nature
Or the beauties of architecture,
Flying my hair like a field of corn
Chance-sown on the neglected side of a hill,
My head is at the top of me
Where I live mostly and most of the time,
Where my face turns an inner look
On what’s outside of me
And meets the challenge of other things
Haughtily, by being what it is.

From this place of pride,
Gem of the larger, lazy continent just under it,
I, idol of the head,
An autocrat sitting with my purposes crossed under me,
Watch and worry benignly over the rest,
Send all the streams of sense running down
To explore the savage, half-awakened land,
Tremendous continent of this tiny isle,
And civilize it as well as they can.

ORGULHO DA CABEÇA

Fosse encaixada em outra parte e não assim,
Girando em seu soquete privado e preciso
Como sol encaixado numa junta da montanha ...
Mas, aqui, inclinando e soprando em meu pescoço,
Sem precedente na natura
Nem nas belezas da arquitetura,
Esvoaçando meu cabelo como um campo de milho,
Semeada ao acaso num canto esquecido da colina,
Minha cabeça está no topo de mim
Onde vivo mais e a maior parte do tempo,
Onde minha face lança um olhar introspectivo
Para o que está fora de mim,
E encara o desafio de outras coisas
Com desdém, por ser o que é.


Deste lugar de honra, gema
Do continente maior e preguiçoso bem abaixo,
Eu, ídola da cabeça,
Uma autocrata sentada, cruzando minhas intenções,
Olho e me preocupo com o resto com bondade,
Despacho os riachos de sentido para baixo
Para que explorem a selvagem terra semidesperta,
Tremendo continente desta ilha mínima,
E a civilizem o melhor que possam.































NEARLY

Nearly expressed obscurity
That never was yet but always
Was to be next and next when
The lapse of to-morrow into yesterday
Should be repaired at least till now,
At least till now, till yesterday –
Nearly recaptured chaos
That truth, as for a second time,
Has not yet fallen or risen to –
What news? And which?
You that never were yet
Or I that never am until?

QUASE

Obscuridade quase expressa
Que nunca foi ainda mas sempre
Era para ser a próxima e a próxima
Quando o lapso do ontem no amanhã
Devia ser arrumado pelo menos até já,
Pelo menos até já, até ontem ─
Caos quase reconquistado
No qual a verdade, como se uma vez mais,
Ainda não tivesse caído ou se erguido ─
O que há de novo? Qual é?
Você que nunca foi ainda
Ou eu que nunca sou até?



 





























TO ONE ABOUT TO BECOME MY FRIEND

Stand off!

I am stone.
      You must tear your flesh to excavate my heart.

I am storm.
      None can rest with me.

I am mountain.
      Toil to the top, be there a solitary.

I am ice.
      You must be frozen that I be melted.

I am sea.
      I would not give you up again.

If this frightens you,
Stand off! Stand off!

Yet, would you be my friend,
I should be none of these to you.

PARA UM QUASE AMIGO

Para trás!
Sou pedra.
      Você tem de rasgar sua carne para escavar meu peito.

Sou tempestade.
      Ninguém relaxa comigo.

Sou montanha.
      Moureje até o topo, e vire um solitário.

Sou gelo.
      Você tem que congelar para que eu derreta.

Sou mar.
      Não vou devolver você.

Se isto o assusta,
Para trás! Para trás!

Ainda que, se você for meu amigo,
Não lhe serei nada disso.
































YES AND NO

Across a continent imaginary
Because it cannot be discovered now
Upon this fully apprehended planet –
No more applicants considered,
Alas, alas –

Ran an animal unzoological,
Without a fate, without a fact,
Its private history intact
Against the travesty
Of an anatomy.

Not visible not invisible,
Removed by dayless night,
Did it ever fly its ground
Out of fancy into light,
Into space to replace
Its unwritable decease?

Ah, the minutes twinkle in and out
And in and out come and go
One by one, none by none,
What we know, what we don’t knov.

SIM E NÃO

Através de um continente imaginário
Por não poder ser mais descoberto agora
Sobre este planeta totalmente apreendido ­
Sem considerar mais candidatos,
Ai de mim!

Um bicho izoológico andava,
Sem fado, sem fato,
Sua história pessoal intacta
Contra a paródia
De uma anatomia.

Nem visível nem invisível,
Removido pela noite sem dia,
Já terá fugido de sua terra
E da fantasia até a luz,
Até o espaço para repor
Seu falecer inescrevível?

Ah, os minutos piscam e despiscam,
Fechados e abertos vão e vêm,
Um por um, nenhum por nenhum,
O que sabemos, o que não sabemos.






























AFTERNOON

The fever of afternoon
Is called afternoon,
Old sleep uptorn,
Not yet time for night-time,
No other name, for no names
In the afternoon but afternoon.

Love tries to speak but sounds
So close in its own ear.
The clock-ticks hear
The clock-ticks ticking back.
The fever fills where throats show,
But nothing in these horrors moves to swallow
While thirst trails afternoon
To husky sunset.

Evening appears with mouths
When afternoon can talk.
Supper and bed open and close
And love makes thinking dark.
More afternoons divide the night,
New sleep uptorn,
Wakeful suspension between dream and dream –
We never knew how long.
The sun is late by hours of soon and soon –
Then comes the quick fever, called day.
But the slow fever is called afternoon.


TARDE

A febre da tarde
Se chama tarde,
Velho sono arrancado,
Cedo demais para ser noite,
Sem outro nome, pois não há nome
De tarde além da tarde.

O amor tenta falar mas soa
Tão perto em seu próprio ouvido.
Os tic-tacs escutam
O que os tic-tacs retrucam.
A febre preenche onde gargantas se mostram,
Mas nesses horrores nada tenta engolir
Enquanto a sede persegue a tarde
Até o rouco pôr-da-sol.

O entardecer surge com bocas
Quando a tarde pode falar.
A ceia e a cama começam e terminam
E o amor obscurece o pensar.
Mais tardes dividem a noite,
Novo sono arrancado,
Suspensão desperta entre sonho e sonho ­
Nunca soubemos quanto.
O sol se atrasa por horas de logo e logo ­
Então chega a febre veloz chamada dia.
Mas a febre lenta se chama tarde.

























THE TROUBLES OF A BOOK

The trouble of a book is first to be
No thoughts to nobody,
Then to lie as long unwritten
As it will lie unread,
Then to build word for word an author
And occupy his head
Until the head declares vacancy
To make full publication
Of running empty.

The trouble of a book is secondly
To keep awake and ready
And listening like an innkeeper,
Wishing, not wishing for a guest,
Torn between hope of no rest
And hope of rest.
Uncertainly the pages doze
And blink open to passing fingers
With landlord smile, then close.

The trouble of a book is thirdly
To speak its sermon, then look the other way,
Arouse commotion in the margin,
Where tongue meets the eye,
But claim no experience of panic,
No complicity in the outcry.
The ordeal of a book is to give no hint
Of ordeal, to be flat and witless
Of the upright sense of print.

The trouble of a book is chiefly
To be nothing but book outwardly;
To wear binding like binding,
Bury itself in book-death;
Yet to feel all but book;
To breathe live words, yet with the breath
Of letters; to address liveliness
In reading eyes, be answered with
Letters and bookishness.

OS PROBLEMAS DE UM LIVRO


O problema de um livro é, primeiro, não ser
Pensamentos para ninguém
E ficará tão inescrito
Quanto permanecerá não lido
E construir um autor palavra por palavra
E ocupar sua cabeça
Até que a cabeça feche pra balanço
Para publicar a todos
Seu esvaziamento.

O segundo problema de um livro
É ficar desperto e pronto
À escuta como um dono de pousada
Querendo, não querendo hóspedes,
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma
E a esperança de folga.
Vacilantes, as páginas cochilam
E piscam para os dedos que passam
Com sorriso proprietário, e fecham-se.

O terceiro problema de um livro é
Dar seu sermão e virar as costas
Suscitando comoção nas margens
Onde a língua cruza o olho,
Sem declarar nenhuma experiência de pânico,
Nenhuma cumplicidade neste tumulto.
A provação de um livro é não dar pistas
De ser provação, é ser neutro e leigo
No sentido reto do impresso.

O problema de um livro, principalmente,
É ser só livro na superfície;
Vestir capa como capa,
Se enterrar em morte-livro
Mas se sentir tudo menos livro,
Respirar palavras vivas, mas com o hálito
Das letras; endereçar vivacidade
Nos olhos que leem, ser respondido
Com letras e livrescidade.





























BEYOND

Pain is impossible to describe
Pain is the impossibility of describing
Describing what is impossible to describe
Which must be a thing beyond description
Beyond description not to be known
Beyond knowing but not mystery
Not mystery but pain not plain but pain
But pain beyond but here beyond

ALÉM

 
Dor é impossível de se descrever
Dor é a impossibilidade de descrever
Descrever o que não é possível descrever
O que deve ser uma coisa além da descrição
Além da descrição para não ser conhecido
Além do conhecido mas não mistério
Não mistério mas dor não claro mas dor
Mas dor além mas aqui além
























BECAUSE OF CLOTHES

Without dressmakers to connect
The good-will of the body
With the purpose of the head,
We should be two worlds
Instead of a world and its shadow
The flesh.

The head is one world
And the body is another –
The same, but somewhat slower
And more dazed and earlier,
The divergence being corrected
In dress.

There is an odour of Christ
In the cloth: bellow the chin
No harm is meant. Even, immune
From capital test, wisdom flowers
Out of the shaded breast, and the thighs
Are meek.

The union of matter with mind
By the method of raiment
Destroys no our nakedness
Nor muffles the bell of thought.
Merely the moment to its dumb hour
Is joined.

Inner is the glow of knowledge
And outer is the gloom of appearance.
But putting on the cloak and cap
With only the hands and the face showing,
We turn the gloom in and the glow forth
Softly.

Wherefore, by the neutral grace
Of the needle, we possess our triumphs
Together with our defeats
In a single balanced couplement:
We pause between sense and foolishness,
And live.


POR CAUSA DAS ROUPAS

 
Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro -
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum.
Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.































HOW A POEM COMES TO BE

for James F. Mathias

Necessity haunts us as an accusation of impotence:
Can you or can you not speak up,
Prove yourself present?
What do you have to find to say,
To deliver the knowledge that you are
To the mercies of the believing and not-believing
Of our kind in one another,
You may gather as you approached them,
And leave the issue of acceptance
Suspended between your offering
And its fate with them in time.
(This is named ‘prose’!)
Or you may call for listeners,
And not wait upon them –
Making what you find to say
Self-witnessing, be listeners absent.
(Thus does the poem constructs itself:
As for delivery within narrow throw.
If there is no attendance, it yet speaks.)

Reality in a poem is inextensible.
It embraces the will to speak up,
But, if it presumes to include
Visiting will to hear the said,
It feigns Presence to it besides its own.

What else can be done?
Do we not speak to one another?
Put words into the air and on paper
That travel between us as real,
Under the protection of time,
Not all lost between one and another,
These, those, and their others,
Or lost all at once?

Were this not a poem
I would speak on speaking,
Write on speaking (and writing),
That saved itself for the other, others,
Constructed itself for one and all,
Or none, contained its travel-force within it,
Needed no grace of time to rescue it
From total loss.

Or I would so speak, so write,
Endeavour to construct, I mean,
Something binding our understandings
In a reality of words, selves, others,
more utterable, enterable, occupiable, open.

COMO NASCE UM POEMA

Para James F. Mathias

A necessidade nos acossa como acusação de impotência:
Você pode ou não falar mais alto,
Provar que está presente?
O que você precisa encontrar para dizer,
Para passar o saber que você existe
À revelia dos crentes ou descrentes
Da nossa espécie em cada um,
Você pode chegar junto ao chegar perto deles
E deixar o assunto de aceitação
Suspenso entre sua oferta
E seu destino com eles no tempo.
(Isto se chama "prosa"!)
Ou você pode convidar ouvintes,
Sem esperar por eles ─
Fazendo do que você acha para dizer
Um testemunho de si, se ausente de ouvintes.
(Assim o poema se constrói:
Para ser entregue numa distância curta.
Mesmo sem plateia, fala.)

A realidade num poema é inextensível.
Abrange a vontade de falar mais alto,
Mas, se presume incluir
A vontade visitante de ouvir o que é dito,
Finge ser uma
Presença além da sua mesma.

O que mais pode ser feito?
Não falamos mais um com o outro?
Pomos palavras no ar e no papel
Que viajam entre nós como se o real,
Sob a proteção do tempo,
Com nem tudo perdido entre uma e outra,
Estas, aquelas e suas outras,
Ou perdidas de uma vez?

Não fosse isto um poema
Eu falaria sobre o falar,
Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever),
Que se guardaria para o outro, outros,
Se construiria para todo mundo,
Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante,
Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-Io
De uma perda total.

Ou eu falaria, escreveria, assim,
Esforçando-me para construir, quero dizer,
Algo ligando nossos entendimentos
Numa realidade de palavras, de eus, de outros,
Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta.

NOTAS
* Os poemas foram extraídos do livro de Laura Riding, Mindscapes - Poemas, traduzido por Rodrigo Garcia Lopes para a Editora Iluminuras, em 2004.
* O texto de Alberto Pucheu, originalmente publicado no Caderno Prosa & Verso, do Jornal O Globo, de 26/02/2005, foi retirado do blog mantido pelo poeta: http://www.albertopucheu.com.br.

* Pinturas de De Chirico. 

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