quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Dez tábuas



G.T.O.
























Mais um poema do livro Movimento Suspeito (Urutau, 2016)


Dez tábuas

palavras

em curso
as correntes
áureas algemas
no pulso
taquicardia
taquigrafia
fluxo
em curto
a energia vaza

para o caos
bastam 10%

salvação

para o fundo
o ferro fundido
em Cremona
o ver de olhos livres
das meninas da gare
a máquina do mundo
dos irmãos Dante & Drummond
o concreto
entre design e divino
clowns e espectros de Shakespeare
o anjo Gabriel bêbado
no Cabaré Voltaire

não há mais reservas
para o Paraíso

império

os ratos robustos
em seus turvos discursos
de tungstênio e medida milimétrica
vetustos sacripantas da onipotência
em ilusões de ética
para répteis
lixocracia,
o mau hálito do poder
arrota democracia
com tropa de choque
estatísticas falsificadas
demagogia

fezes e vermes
a gosma de Leviatã

sentidos

carne sem tecido
ideias
no oco de ossos
sombras
no balé das ruínas
de signos fixados
simulacros
crucificados
nos objetos perdidos
entre a estação central
e a borda
do abismo
onde tudo desaba

sem noção
tudo sem noção

verdade

tratados teológicos
cartas de princípio
documentos secretos
agendas
certidões negativas
ordens de despejo
intimações da justiça
cadernetas de vacina
listas de compras
declarações de fé
relações de bens
declarações de imposto de renda
históricos escolares

em nenhum arquivo
vive a verdade

tempo

dez mil amigos virtuais
um novo mausoléu flutuante
para embalsamar o tempo
em saquinhos de saquê ou de sacolé
nenhum espaço
sem preenchimento
todos os mil itens obrigatórios
não esquecer sorriso permanente
frases  de vencedor
expressões de triunfo
acúmulo de bolsas
e acessórios

os vírus hackearam nosso fígado
os vírus apagaram os relógios

amor

só me lembro de Eros
quando o computador
dá pau
e aparece error
no monitor
os grandes amores
gosmentos
congelados no freezer
para toda a vida
sempre haverá outra
saída

o amor morreu de retórica
pouco antes do almoço

inimigo interno

há algo comigo
que não assimilo
em mim
o mais distante
horizonte
rasga o umbigo
e segue adiante
indiferente
ao meu pânico
um afluente
inverso
(rio de matéria escura)
corre em refluxo constante
ilegível verbo evasivo
inconjugável
conjura a falência dos sentidos
entre pleura e pneuma
o trânsito de inessência
intratável
um lance
sempre fora de alcance

e se eu for.
Sá de Miranda,
somente aquilo que me escapa?

corpo

parafusos de titânio
no maxilar
para que as palavras
fora de fuso
soçobrem horizonte
eviscerado

da carne em ganchos
e febre
no frigorífico
pingos de suor
desgastam frágil guarda-volumes

o rosto
profano sudário
fora de uso
trêmulo desenho
inconcluso

movimento peristáltico
do corpo
nuvem difusa
suicida
no vaivém
das cordas vocais

extirpar do rosto
todas as cidades perdidas.

horizonte

prestar atenção
ao excesso
não para podá-lo
mas ampliá-lo
até o limite
insuportável
do palco
onde ondas
desabam
círculos
em debandada

espreitar
o que se acumula
como pus
nas palavras
extremas
espremê-las
em linhas
no sentido anti-horário
até não mais
alcançá-las

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...