Cruz e Sousa




Cruz e Sousa

Os poemas transcritos abaixo foram extraídos do livro Poesia completa de Cruz e Sousa, publicado em 1981, pelo Governo do Estado de Santa Catarina: Fundação Catarinense de Cultura. Que dizer de Cruz e Sousa? Mestre? Monstro? Negro monge louco?

Patrimônio poético da humanidade, sua obra deveria ser tombada pela Unesco e divulgada em todas as línguas. Reduzi-la à musicalidade evanescente simbolista não dá conta de sua complexidade e beleza. A sonoridade não resulta apenas de filigrana estilística, encarna a voz de uma alma enclausurada em busca de transcendência e redenção, vergastada por um mundo hostil. O espaço cósmico ao qual Augusto dos Anjos nos remete já está aqui; a tensão extraordinariamente dramática, o vocabulário técnico da morte, um expressionismo anterior à corrente modernista, tudo aponta para a existência de uma das maiores vozes poéticas da modernidade em qualquer língua.



Vida obscura

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
o mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
a vida presa a trágicos deveres
e chegaste ao saber de altos saberes
tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
sei que cruz infernal prendeu-te os braços
e o teu suspiro como foi profundo!

(In Últimos sonetos)


Monja

Ó Lua, Lua triste, amargurada,
fantasma de brancuras vaporosas,
a tua nívea luz ciliciada
faz murchecer e congelar as rosas.

Nas flóridas searas ondulosas,
cuja folhagem brilha fosforeada,
passam sombras angélicas, nivosas,
lua, Monja da cela constelada.

Filtros dormentes dão aos lagos quietos,
ao mar, ao campo, os sonhos mais secretos,
que vão pelo ar, noctâmbulos, pairando...

Então, ó Monja branca dos espaços,
parece que abres para mim os braços,
fria, de joelhos, trêmula, rezando...

(In Broquéis)





Acrobata da dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Reteza os músculos, reteza
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.

(In Broquéis)



Cavador do infinito


Com a lâmpada do Sonho desce aflito
e sobe aos mundos mais imponderáveis,
vai abafando as queixas implacáveis,
da alma o profundo e soluçado grito.

Ânsias, Desejos, tudo a fogo escrito
sente, em redor nos astros inefáveis.
Cava nas fundas eras insondáveis
o cavador do trágico Infinito.

E quanto mais pelo Infinito cava
mais o Infinito se transforma em lava
e o cavador se perde nas distâncias...

Alto levanta a lâmpada do Sonho
e com seu vulto pálido e tristonho
cava os abismos das eternas ânsias!

(In Últimos sonetos)


Escravocratas


Oh! trânsfugas do bem que sob o manto régio
manhosos, agachados ― bem como um crocodilo,
viveis sensualmente à luz dum privilégio
na pose bestial dum cágado tranqüilo.

Eu rio-me de vós e cravo-vos as setas
ardentes do olhar ― formando uma vergasta
dos raios mil do sol, das iras dos poetas,
e vibro-vos à espinha ― enquanto o grande basta

O basta gigantesco, imenso extraordinário ―
da branca consciência ― o rútilo sacrário
no tímpano do ouvido ― audaz me não soar.

Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
vermelho, colossal, d'estrépito, gongórico,
castrar-vos como um touro — ouvindo-vos urrar!


(In O livro derradeiro)
 
 

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