Conexão fantasma

Trabalho de Rauschenberg










































Conexão fantasma

Pegou a mochila, sacou o lápis para desenhar
Ineses mortas e perdidas Penélopes. Incapaz de
qualquer traço, abriu o laptop e acabou escrevendo
o título de poema informe. "Pêssegos à margem",
o tom joyceano dispersou-se no espírito tomado
por multidão e algaravia. Intumescidas palavras
escorriam pelas pálpebras, vinham impregnadas
de películas de fracasso. Podia, ao fechar os olhos,
escutar todos ritmos do desastre. Abriu a terceira
gaveta para pegar desculpas e fôlego. Na verdade,
queria apenas esquecer a dormência do olho direito
e a ardor nas axilas. Alguém jogara alvejante
na lua, talvez a mesma pessoa que espalhara Nora Ney
na madrugada. Três folhas de rascunho lançadas
aos canteiros do prédio em obras, andaimes farpados
na geometria de desconcertos camonianos.
Três vezes o coração em oferenda a clínicas cardiológicas.
Três vezes o nome capaz de destruir o universo
instigou passagens secretas da memória.
Da mochila sacou o "Poesia expressionista alemã"
para vampirizar Berlim, Dusseldorf, Munique,
nosferateando Gotffried Benn,, August Stramm
e Goerg Trakl. Sentiu fome, sentiu sede. Nada o
levantaria da cadeira de pé quebrado,
iria noite adentro bamboleando quedas e fracassos,
laptropeçando sempre na mesma tecla.


In Anarquipélago (Ibis Livris, 2013).

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