terça-feira, 31 de outubro de 2017

Cica dos oitis




Cica dos oitis

     Um contrassamba para Hélio Oiticica

O sol
cica dos oitis
seca redundância
um gole
de parangolé
pinga
em capas de poesia possessa
balé marginal
sacolé de anarquia
parangolonge da Mangueira
comichão de frente
ala de balangandãs e barangas
penetráveis perfuratrizes da percepção
múmia previsível
colisão dos corpos da cidade
em esbórnias bólides
Hélio Oiticica
de fantasia toptoptropicalista
na bacia das almas
com Cara de Cavalo e Mineirinho
dois amigos
incorrigíveis
: caçados vivos ou mortos
todo dia


Poema publicado no livro Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013.




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Antes que anoiteça

                       



Domingo é dia de tirar as escamas do corpo, fechar as cortinas, passar a chave na porta pela manhã, aprisionar por duas ou três horas o desencanto no apartamento e sair ao sol, esse estranho senhor de terno amarelo. Depois é estirar a nebulosa da mente por dez quarteirões à frente, contornar uma praça entregue às moscas e voltar pela calçada do muro do cemitério, escutando vozes lamentando-se por tudo que não fizeram. É aí que a nebulosa se desfaz, aperto os passos para dizer algo aos meus filhos antes que a minha voz amplie o coro.

sábado, 28 de outubro de 2017

Solto palavras

Raul Zurita












Solto palavras
de asas de seda
no mormaço da tarde
como velhas lavadeiras
jogam fora a água
de roupa suja
numa bacia metálica.
.
São de linhagem extinta,
mas posso ouvi-las,
perdidas,
invadir o azul
em voo incontrolável.

Minhas sílabas fora de catálogo
com pernas de bailarinas chinesas
fogem de mim
carregadas de SOS e falhas.

Talvez,
num ponto cego do universo,
retornem à minha língua
a fim de que não consiga mais pronunciá-las.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Busca

Egon Schiele





















O que se faz
quando se falha?

Abrir as asas
ao sol de novas quedas
na carne incinerada
pelo silêncio.

Acertar o alvo
- rubra orquídea inacessível –
imóvel
a cem metros da fuga
desfaz os limites do corpo.

Abrigá-lo no fôlego de haste inflada,
dar-lhe a sombra de fugaz arremesso,
muda mágoas mudas
e tudo o mais
em algo além da música,
aquém da eternidade.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Obras e lagartos

Paul Klee, Comedy, 1921
















Lagartos saem da garganta
alagada de sarcasmos.
O pior sáurio fica na toca,
a língua solta na boca.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Colmeia




Colmeia

petrificado o mel
pela gosma
que escorre dos dias,
nada adocicada
a cicatriz
por baixo dos panos
com os quais se abafa
o pólen da língua
sem flora

abelhas
- sílabas suicidas -
caem como moscas
em flores artificiais

aliterações climáticas
ampliam a camada de cesuras
na brutosfera

rimas deixarão em ruínas
a crosta terrestre

e você me pergunta
o que isso significa?
olhe ao redor
e me diga
quanto tempo durarão as ariranhas,
os tamanduás,
as formigas.



Falta



























Falta

Há quatro meses
minha mãe desapareceu.
Não chovia,
não ventava.
não fazia sol
nem nada.
Eu não estava.
Acho que desapareci
muito antes
em algum beco do Estácio
hoje desaparecido
como o ginásio
desaparecido
e os amigos.
O mundo não acaba,
é verdade,
apesar de bem acabado,
apenas desaparece
num telefonema truncado.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Janeiro joga




















Janeiro joga
areia nos meus olhos
quando você
sai de férias
rumo a praias paradisíacas
um pouco antes
do momento reservado
à nossa mútua descoberta.

Qual linha do metrô
me levará à estação das chuvas
que arrancam a vida dos trilhos?



Leme solto


Pablo Picasso - Baigneuse assise au bord de la mer, 1930




















Leme solto

não mais o mar
sob os corpos desmoronados

não mais o barco
flutuando fora das águas

não mais os nervos,
velas acesas em naves fugazes

não mais Ulisses
no oceano que falta

apenas  uma banhista
ancorando Atlântidas no crepúsculo 





quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Hans-Curt Flemming




Em qualquer porta atravessada por alguém capaz de ultrapassar as próprias margens caberia o aviso do poeta alemão Hans-Curt Flemming.

Um bilhete na minha porta:

estou
em busca de
mim
daí que não
me encontrem por enquanto

até lá
o que se parece comigo é
só embalagem

In Entre a guerra e o muro: coletânea bilíngue comentada. Seleção, tradução e notas Rui Rothe-Neves e George Wink. Belo Horizonte: Tessitura: Faculdade de Letras, 2007, p. 82.

4 haicais













4 haicais

Colibri no caos
descarta em ângulos mortos
cem gotas de néctar.

Jacaré-açu
olho aberto no igapó.
Gatilho por perto.

Cobra cascavel
furta sede alheia no rio.
A vida é fluxo.


Grande cisne negro
gira elegância na água.
Dança da beleza.

Sonho de Adrian Leverkühn vira fumaça

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Sonho de Adrian Leverkühn vira fumaça

A música murcha no ar
em ondas médias
longas
curtas
a vida
às vezes
a carne
no microondas
viva

Fuga da cidade morta




















Fuga da cidade morta

Aglaia
chegou cedo
à estação
malas na plataforma
empoeirada
a cidadezinha
no norte de Minas
expulsava
as bruxas pelos telhados
levaria
Delta de Vênus
de Anaïs Nin
a prata dos falsos banhistas
buscando anéis
no fundo do córrego
carregaria o pudor
em sacos de lixo
para outra geografia

cadeados, guardas e códigos
em janelas espiãs  
a vida pastosa arava o intragável
ao abrigo
de párocos e cochichos
a flor oculta
do desejo
revelara o nome
antes da aurora

a cidade das mulheres perdidas
500 km ao sul
a salvaria
de hóstias selvagens

O irrecuperável

Imagem relacionada


As mulheres cicônias
silenciaram as duas luas negras de Orfeu,
olhos saudosos de Eurídice.
De pouco valeu o encantamento
de Cérbero, das Fúrias, de Plutão
e de Prosérpina,
anestesiados por lira divina.
É bem mais fácil comover o Inferno
do que decifrar nossos caminhos.
A paixão levou Orfeu a apagar toda a travessia
ao olhar a hamadríade morta na Trácia
poucos passos atrás de sua sombra.

Orfeu,
a primeira mulher de Lot,
mais bela e trágica a sua derrota,
sabia que caminhar é acumular perdas.

No que já perdemos está o que perderemos adiante.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sob o céu de Lisboa




As casas de fado nas ruazinhas e vielas da Alfama, na volta da subida ao Castelo de São Jorge, entoam canções marítimas que se agarram aos meus passos. Ao léu pelos bares e cafés boêmios do Bairro Alto, mesmo diante do mercado municipal, após idas e vindas entre as ruas de D. Pedro V, de São Pedro de Alcântara, da Rosa, do Conde de Soure, da Atalaia, como fantasmas sonoros as músicas ainda tomam a minha alma toda de assalto. Depois da noite plena e insone, fugi do roteiro turístico de dez prestações e vaguei por Restelo, Baixa, Liberdade. Parada obrigatória no Brasileira, café famoso no elegante Chiado, bairro onde Fernando Pessoa permanece sentado, alheio ao progresso. Evitei livrarias para não suprimir a cidade dos meus olhos. Em visita ao Museu Nacional do Azulejo, no dia posterior ao deslumbramento produzido pelo monumental Mosteiro dos Jerônimos, herança da grandeza perdida, fruto do cristianismo e do expansionismo luso, onde repousam os restos de Camões. Aliás, guardo do mosteiro o sabor dos pastéis de Belém depois da longa fila na Fábrica dos Pastéis de Belém, todos de olho na Oficina do Segredo. Depois, incursões ao Museu do Traje e ao Museu dos Coches. Rápida passagem pelo Oceanário, pela imponente Sé, antes do passeio nostálgico à Torre de Belém, graciosa fortaleza em miniatura.  Sem tempo para apreciar a paisagem vista do teleférico, cansado e sonolento para guardar a rápida visão noturna da Estação do Oriente, retorno à colmeia. Manhã apressada me levou ao Largo do Rossio, entro na Rua do Carmo, olho tudo, mas não compro nada. Perambulo pelo metrô: Baixa/Chiado, Rossio, Martim Moniz, Intendente, Anjos, Arroios, Alameda, e volto. Dia sem compromissos, melhor então é comer sardinha no Peniche. Já havia me encantado a bordo do bonde 28 e seu percurso mágico. Antes de pensar nas malas, um tremor. Alguém está em todas as ladeiras. Percebo, entre cafés e azulejos, Cesário Verde recitando o poema “Num bairro moderno”. A voz baixinha, que só eu escuto, cria um corpo humano imaginário, construído com frutas, legumes e hortaliças, à semelhança do que realizou, embora com mais estranheza, Arcimboldo na pintura. Cesário Verde renovou temas e incorporou à poesia as falas das ruas de Lisboa. Além disso, o forte sentimento do concreto, a metalinguagem, a ironia cortante, a perda da aura da figura do poeta e o intenso apelo visual conferem aos seus poemas uma acentuada modernidade. No começo não compreendi a sua interferência na paisagem. Depois lembrei a ausência inscrita na minha origem, então sorri com serenidade. Sob o sol de Lisboa jaz intacta a rua inaugural da minha existência. Meu pai, o oceano.

sábado, 7 de outubro de 2017

Praia dos párias


O craque

Ilustração de Gilmar Fraga



O craque

     José Antônio Cavalcanti

Até que eu estava jogando bem, já havia cabeceado uma bola na trave e obrigado o goleiro a realizar duas defesas magistrais. Passe de calcanhar, de letra, trivela, finta, drible de corpo: um repertório luxuoso. Fui considerado o melhor jogador durante os primeiros quarenta e cinco minutos. Alguns, mais generosos, atribuíam a resistência do outro time à truculência da zaga.

O zero a zero do primeiro tempo fora injusto para o futebol apresentado pela nossa equipe. Tínhamos de aproveitar os quinze minutos finais da partida para assegurar a nossa vitória, já que na etapa final o adversário voltara bem melhor. Foi aí que o Peninha fez um senhor lançamento. Ganhei do cabeça de área deles na corrida e driblei o quarto-zagueiro, deixando-o caído no gramado. O goleiro já estava vencido. Era só dar um toque para o canto direito. A bola já ia beijar as redes adversárias. Quando preparava a canhota, no entanto, apareceu um cara encostado na trave direita. Na mão do homem, como um mortal apito de um árbitro seguidor de estranhos regulamentos, uma pistola sete meia cinco inverteu a jogada. A perna tremeu. A bola passou zunindo por cima do travessão. O desgraçado, ainda com o corpanzil encostado na trave direita, guardou a arma na cintura e correu para o bolo formado por repórteres e fotógrafos.

A revolta da torcida desabou sobre a minha cabeça. O Maracanã inteiro passou a me vaiar. Torcidas organizadas e desorganizadas urravam desespero. Vozes madureiras, jacarepaguás, copacabanas, tijucas, ilhas, baixadas, todo um dicionário de xingamentos, uma sinfonia de insultos - o múltiplo canto dos excluídos, agora expulsos também da alegria redentora de um título, único bem a ser exibido e carregado pela maioria nos bares, nos becos e nas ruas da cidade.

Os jogadores do meu time começaram a me hostilizar, evitando passar a bola para mim. A zaga do outro time cismou de baixar o sarrafo nas poucas vezes em que consegui tentar algo mais ousado. O juiz aproveitou uma dividida (quase arrebentaram o meu tornozelo) e me sapecou um cartão amarelo. Os comentaristas insuflavam o ódio da massa. Um repórter, ansioso por aumentar a audiência de sua emissora, informou, com uma entonação pausada e maldosa, a minha presença, no dia anterior ao da partida, na casa do goleiro adversário, e o resultado do nosso encontro tinha ficado claro naquele lance. A torcida não perdoou: o estádio veio abaixo. Praias, favelas, subúrbios, zona norte, zona sul, todo o Rio de Janeiro explodiu: de raiva, os nossos torcedores; de prazer zombeteiro, todos os outros, entregues à explosão de contentamento, deboche, piadas, canções infames, zombarias, insultos...

O técnico retirou-me de campo, maldizendo a hora em que me tinha escalado. Fui obrigado a sair às carreiras, evitando a chuva de pedras, latas de cerveja e outros objetos despejados sobre mim da arquibancada. Vários jornalistas tentaram me seguir na boca do túnel, queriam saber se eram verdadeiras as informações de que um dirigente do outro clube teria encarregado o goleiro de me oferecer uma vultosa quantia para evitar gols. Consegui escapulir. Tranquei-me no vestiário, suportando o olhar de desprezo do Geraldão, o roupeiro, e de outros funcionários do clube.

O jogo acabou. O time voltou arrasado. Não perdemos, mas o empate nos eliminou da decisão do campeonato. Ninguém me dirigiu uma palavra de conforto ou esboçou a menor tentativa de crítica. O nojo e a revolta surda eram visíveis. Foram embora sem o bicho que antes consideravam no papo. Talvez o clube também não pagasse os salários atrasados.

Por um rádio de pilha, ouvi um comentarista arrasar a baderna no futebol, a corrupção entre cartolas, jogadores e empresários. E eu era o pivô de tudo - símbolo da degradação do futebol. Ninguém percebera um cara encostado na trave direita me apontando uma pistola. A multidão revoltada me esperava na saída. A polícia garantia, com precariedade, a segurança da minha família, pois torcedores exaltados rondavam a minha residência. Tinham até atirado pedras na minha mulher, totalmente avessa ao futebol, quando brincava com as crianças no jardim.

Minha explicação foi motivo de piada. Ninguém vira o homem com uma sete meia cinco encostado na trave direita da outra equipe. Houve riso, ironia, indignação. Tornei-me um exemplo de noitadas, bebedeiras, orgias. Seguramente, eu havia entrado sob o efeito de alguma droga em campo. Como me deixaram escapar do exame antidoping? Tudo isso, levianamente disseminado pela mídia, multiplicava o meu desespero. Como tudo pôde acontecer? Como explicar esse pesadelo? Nenhuma emissora apresentou uma imagem capaz de dar veracidade à minha história. Nenhuma foto. Nenhuma testemunha. Nenhuma pista, por mínima que fosse.

Agora vou esperar muitas horas até que os ânimos esfriem. Amanhã evitarei os amigos, não lerei os jornais. E pensar que, ainda ontem, eu era considerado uma das revelações do campeonato.


Já é madrugada e amargura. Ninguém mais no estacionamento, apenas eu e quatro PMs. Não, há mais alguém, exceto o carro de algum retardatário que só agora está saindo; passa lentamente bem ao meu lado. Ao volante, o homem da sete meia cinco me manda um beijo.

Defeito de fabricação

Adriana Varejão

















Defeito de fabricação

O amor
possui duas pontas.

Uma
nunca
se encaixa
na outra.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Desacontecimento

Wesley Duke Lee






















Desacontecimento

Até então
se podia
seguir
na contramão
do mesmo
ou a esmo.

Havia
vidas fora do
ar,
em vias de rumo
qualquer;
câncer de avidez
em vidro-galeria.
Talvez naufrágio,
talvez poesia.

Pouco a pouco
os gestos gotejam abstratos
como zeros gastos
ou carros abandonados
em fuga.

Sem caminho
na cidade,
sem espessura,
volume,
densidade,
o mundo se desloca,
o eixo da Terra muda.

Tudo se turva,
tudo se nubla,
tudo se apaga,
agora,
com a faca da sua ausência  
cravada na garganta.



Cica dos oitis

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