segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Margem de erro

























Tremiam as mãos
na despedida
(a fila do check-in
dava voltas ao redor de desculpas).

Falsas promessas acenavam
da área de embarque
(por trás de óculos ray-ban
alívio e ameaça
de recaída).

Sorrisos mecânicos
desenhavam mútuo desconforto
em rostos extenuados
de recomeços
e voos em parafuso.

Por que os alto-falantes anunciam atrasos
quando queremos guardar intactos nossos erros,
livres do instante em que leve vacilação
nos convida a visitar íntimos abismos?

* Esta é uma versão modificada do poema "Bagagem pesada".




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Kafka, a aristocracia e as leis



“Nossas leis não são conhecidas por todos, elas são um segredo do pequeno grupo de aristocratas que nos domina. Estamos convencidos de que essas velhas leis são observadas com exatidão, mas é algo extremamente torturante ser dominado por leis que não se conhecem. Não estou aqui pensando nas diversas possibilidades de interpretação e nos prejuízos daí decorrentes, quando só alguns, e não o povo todo, podem participar da interpretação. Talvez esses prejuízos nem sejam tão grandes. Afinal, as leis são tão antigas, séculos trabalharam em sua interpretação, inclusive essa interpretação já deve ter se tornado lei, e, embora possíveis liberdades exegéticas ainda persistam, elas devem ser, no entanto, muito limitadas. Além disso, a aristocracia não tem, evidentemente, nenhuma razão para se deixar influenciar na interpretação em nosso desfavor por seu interesse pessoal, pois, afinal, as leis foram fixadas desde o início a favor da aristocracia, a aristocracia está acima da lei, e, justamente por isso, a lei parece ter-se colocado exclusivamente nas mãos da aristocracia.”


Início do texto “Sobre a questão das leis”, de Franz Kafka. In  Nas galerias. Tradução de Flávio R. Kothe. São Paulo: Estação Liberdade, 1989, p, 93.

Furada




















Furada

Peguei uma bike
para ir da pós-verdade
às mentiras de sempre.
Só encontrei rede de remendos
lançada ao mar sem peixes.
No meio do caminho
encontrei meu grande amor
mas era fake.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Hells Angels



























Os pilotos amorfos
e suas mofocicletas envenenadas
disputam um pega
varetas
no banheiro do bar
no meio do nada.

Alguém esqueceu
luvas de couro
no lavatório.

Símile



















Por não poder
atravessar a via expressa,
sentei-me à mesa de um café
de sombras,
pedi um cappuccino,
abri pequeno caderno cinza
onde me aventuro nos pântanos
de outra cidade.

Para minha surpresa
encontrei palavras
sorvendo em silêncio
o licor ambarino da calmaria,
percebi que há muito tempo
também não conseguiam
ultrapassar as linhas inimigas.

Orides Fontela




















Elegia (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

o que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um esquema
de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas,

brandas asas repousam.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Mímica moderna



















Meus gestos já não são os mesmos.
As palavras doem.
Abafados os sons.
Sílabas atordoadas
entrechocam-se.
Não sei os nomes.
Perdi o código.

A minha fala
agora só falha
em folhas em branco..
Reticências,
hiatos,
lacunas,
silêncios.
Supressão de sonoridades,
nem graves nem agudas,
só letras mudas,
cegas,
surdas,
absurdas.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Poesía
















Los poemas perdieron sus palabras.
Han caído, como dientes cariados,
en agujeros negros,
sórdidas rutinas,
fallas tectónicas.

Las palabras murieron ahogadas
en dosis letales de sonoridad,
se han convertido en fantasmas en el aire,
aves volatizadas,
despedazadas sílabas muertas.

El poeta es mímico y malabarista de lenguas
que ya nadie puede escuchar.

El arte se volvió en álgebra invisible
en estos días de solombra.
No hay más invención ni proyecto;
sonríe la estética de la midia
sob el cielo de acetato.

El tiempo fue expurgado
de cualquier temporalidad,
y alguien ha hurtado lo real
y sus márgenes de sueños:
nadamos en charcos de lama y plástico
en la ciudad sin metáforas.

Quizás ahora, que no hay más poemas,
podamos escribir un poema imposible.


In Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013, p. 43


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Anjos




















Anjos *

           O último anjo derramou seu cálice no ar. – Murilo Mendes

Não o da melancolia de Dürer,
olhos exilados de signos,
exausto de garimpar as sílabas
de nome nunca revelado.

Não os prosaicos e suspensos
anjos de Chagall
descascando pecados
acima de chão de cebolas.

Muito menos o de Benjamin,
de costas para o futuro
em voo pesado, obscuro.

Sequer aquele caído nas sombras
de Drummond
em torta escrita de tropeços.

Nem a criatura terrível de Rilke,
de asas lavadas em ira e arrogância,
escriba e vigia de nossa agonia.

Um anjo também me assombra
só para sangrar-me.
Anjo apóstata e herege,
corrói com asas de inseto
caminhos e projetos.
Examina com tédio e desapreço
os índices de pânico e de esperança
depois de devastar minhas reservas
de azul..
Intrigante e pérfido,
sussurra-me conselhos obscenos,
pragas,
impropérios.

Mostra-me o seio esquerdo
e me olha envenenado,
mensageiro sem mensagens,
desertor de Deus e do homem.

Em sua última visita
na calada da noite de algas e liquens,
corpo macio colado ao meu,
dupla inscrição de naufrágio
risca as placas e as paredes da cidade.


* Poema publicado, com pequenas modificações, no livro Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013, pp. 104-105.

A vingança dos persas





A vingança dos persas *

       “
O que esperamos na ágora reunidos?
                           - Konstantinos Kaváfis

Vão-se os navios gregos
abarrotados de moedas cunhadas
nas saias de Medeias mortas.

Tebas, Atenas, Corinto,
estiradas em mesas de cassinos,
fecharam as sete portas de bronze.
Agora shoppings agonizam
Agamenons e Ariadnes.

Padece a paideia no labirinto
de novos persas.

Ifigênia e Ajax em transe,
Homero arremessa o escudo de Aquiles
contra os bancos de extermínio,
de sangue,
de crime.

Nem Diotima de Mantineia sonharia
revelar a Sócrates profecias de tamanha barbárie.

Helicópteros patrulham Micenas,
e Midas já mandou as suas milícias
de cães e répteis contra Hércules.

Efebos deserdam fábulas,
lanças caídas em filas de desemprego,
elmos abandonados,


* In Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis, Libris, 2013, p. 114.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Eclipse
























Corpos e palavras
em câmara escura.

Nudez oculta
acaricia o outro lado da lua
de pernas de porcelana,
toda trincada
de queixas e quedas,
trancada
em quarto minguante.

lingerie no assoalho
lança no teto alaranjado
sombras de amor sublunar.

Sobre a cama
finas camadas de mágoa
escavam a camisola
com beijos incandescentes
na zona central da noite
inacabada.

Tua presença,
teu corpo em falso repouso,
abismo,
campo magnético
ignoto,
devasta as linhas do meu rosto
e escreve em fogo
novo caminho para as estrelas.

Cessou a chuva





















A noite,
em silêncio,
secou a tarde
estendida na rua.

Descerro os olhos
e desenho ausências
na calçada da página.

Em sala sombria,
sem acesso a teu corpo selvagem,
observo a muda passagem de cometas
sem cauda,
sem coroa,
sem brilho.
Deixam um sulco invisível
à sombra de estrelas inclementes.

Dou adeuses às palavras
que emergem atônitas
do centro da página.
Revoltadas, me indagam:
–  realidade ou pesadelo?

Invento evasivas
com um pássaro de azul e açúcar
no olhar.
Engesso sentimentos
em clichês de nonsense.
Ah, exímio artesão de coisas mortas!

As palavras zombam do meu estro.
Atiram-me vírgulas e acentos.
Dizem-me pilhérias,
impropérios.

Rancorosas,
roubam-me a caneta
e se escrevem.

Herberto Helder






















a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação,
¿e se me tocam a boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se a vara enflorasse com as faúlhas,
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
¿tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na fase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avesso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda

In Ofício Cantante  - Poesia Completa, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

Fresta

René Magritte



FRESTA


Uma vírgula suspensa

pensa

– entre o nada e o antes –

o adiante.



In Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013, p. 47.


Dissipação

Adriana Varejão



















O que me foge é o que me falta:
o desfazer-se dos disfarces
da face falsa,
a ferocidade de pêndulos
e espelhos,
a fuga de bússolas
e mapas imaginários.

Esvaimento e vento,
meu pensamento.
Opacidade e anacronia,
minha poesia.


Fósseis periféricos



















Prova viva
de que os egípcios,
e não os fenícios,
estiveram por aqui:
múmia mafiosa
imersa em hieróglifos contábeis
com mofo de faraó
e sorriso de zumbi.

Liga de língua – Arquivo II























Não usar advérbio
terminado em mente,
pouco importa
o modo como a verdade
não vem à tona
ultimamente,
quer dizer,
ou seja,
isto é,
ou melhor,
digo,
...mas que zona!

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...