domingo, 31 de julho de 2016

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O que os bárbaros ensinam

















Silenciar a educação,
condená-la à rasura e a rascunho,
algemá-la à pura anacronia,
trocá-la por tablets,
falácia e marketing,
pendurá-la na forca
de contas vermelhas,
obrigá-la aos cardiologistas,
ao crédito consignado
e à aposentadoria irrisória.

É imperioso e urgente
rasgar toda resistência;
negra, vermelha
ou arco de todas as cores.

Qualquer rabisco de liberdade
deve ser apagado com boletim de ocorrência
e gás lacrimogêneo,
permitidas, no entanto,
a pedagogia da indiferença
e o monopólio dos mercenários da fé.

Silenciar a educação
com inspeções milicianas,
neutralizá-la com moedas, mordaças,
jornalistas de aluguel
e o fel
estampado em artigos e editoriais
como estampidos a perfurar
os próximos cem anos.

Silenciar a educação,
ocupar a cidade,
cercar as escolas.
Todo conhecimento é suspeito.
Todo professor é o inimigo público número um.

Numa cidade alimentada por ideias
não há rima entre cela e escola.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O bom escritor



Continuando minha caminhada pela Rua de mão única, tantas vezes percorrida outrora, parei em frente ao nº 268 no exato momento em que Walter Benjamin colava na vitrine de uma livraria às moscas este texto.


“O bom escritor não diz mais do que pensa. E isso é muito importante. É sabido que o dizer não é apenas a expressão do pensamento, mas também a sua realização. Do mesmo modo, o caminhar não é apenas a expressão do desejo de alcançar uma meta, mas também sua realização. Mas a natureza da realização – faça justiça à meta ou se perca, luxuriante e imprecisa, no desejo – depende do treinamento de quem está a caminho. Quanto mais mantiver a disciplina e evitar os movimentos supérfluos, desgastantes e oscilantes, tanto mais cada postura do corpo satisfará a si própria e tanto mais apropriada será sua atuação. Ao mau escritor ocorrem muitas coisas, e nisso se gasta tanto quanto o mau corredor não treinado nos movimentos indolentes e gesticulados dos músculos. Mas exatamente por isso nunca pode dizer sobriamente o que pensa. É dom do bom escritor, com seu estilo,, conceder ao pensamento o espetáculo oferecido por um corpo gracioso e bem treinado. Nunca diz mais do que pensou. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer.”

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Passagem pela Rua de mão única

Jean Selz (left), Paul Gauguin (the painter’s grandson), Benjamin, and fisherman Tomás Varó (with hat) sailing in the bay of San Antonio, May 1933.


Certos textos são assustadores pelas semelhanças que despertam. Hoje reencontrei Walter Benjamin numa esquina da "Rua de mão única".
- Troque a última palavra da nossa conversa por "brasileiros" - disse-me baixinho ao nos despedirmos.

"Um estranho paradoxo: as pessoas só têm em mente o mais estreito interesse privado quando agem, mas ao mesmo tempo são determinadas mais que nunca em seu comportamento pelos instintos da massa. E mais que nunca os instintos de massa se tornaram desatinados e alheios à vida. Onde o obscuro impulso do animal - como o narram inúmeras anedotas - encontra a saída do perigo que se aproxima e que ainda parece invisível, ali essa sociedade, da qual cada um tem em mira unicamente seu próprio inferior bem-estar, sucumbe, como massa cega, com inconsciência animal, mas sem o inconsciente saber dos animais, a cada perigo, mesmo o mais próximo, e a diversidade de alvos individuais se torna irrelevante perante a identidade das forças determinantes. Repetidamente se mostrou que seu apego à vida habitual, agora já perdida há muito tempo, é tão rígido que frustra a aplicação propriamente humana do intelecto, a previdência, mesmo no perigo drástico. De modo que nela a imagem da estupidez se completa: insegurança, perversão mesmo, dos instintos vitalmente importantes, e impotência, declínio mesmo, do intelecto. Essa é a disposição da totalidade dos burgueses alemães."


In Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.21.


Fazer, a poesia




“A poesia é, por essência, mais e outra coisa que a própria poe­sia. Ou ainda: a própria poesia pode muito bem ser encontrada ali onde sequer há poesia. Ela pode até mesmo ser o contrário ou a recusa da poesia, e de toda a poesia. A poesia não coincide consigo mesma: talvez essa não coincidência, essa impropriedade substan­cial, seja o que faz propriamente a poesia”.

Jean-Luc Nancy em "Fazer, a poesia".

Novas banhistas

Trabalho do fotógrafo japonês Daido Moriyama



As banhistas largaram recatos regatos / em fuga de telas molhadas de beleza / agora as águas vêm de canos enferrujados / impregnadas de lodo mijo sangue menstrual / quase sem pressão volume velocidade /partículas suspensas não removem as impurezas impressas na pele / ouve-se o barulho de expansão hídrica entre pálpebras de chumbo.



terça-feira, 26 de julho de 2016

Sobre tradução de poesia





















O que acontece quando Zbigniew Herbert nasce em língua portuguesa pelas mãos de Herberto Hélder ultrapassa os limites da tradução.

Sobre tradução de poesia

Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo
e agora o difícil o mais extremo
penetrar floralmente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de pólen

In Ouolof. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, pp. 9-10.

* * *

“Quanto a mim, não sei línguas. Trata-se da minha vantagem. Permite-me verter poesia do Antigo Egito desconhecendo o idioma, para português. Pego no Cântico dos Cânticos, em inglês ou francês, como se fosse um poema inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e, sobretudo, um poema meu. Versão direta, diz alguém. Recriação pessoal, diz alguém. Diletantismo ocioso, diz alguém. Não digo nada, eu. Se dissesse, diria: prazer. O meu prazer é assim, deambulatório, ao acaso, por súbito amor, projetivo. Não tenho o direito de garantir que esses textos são traduções. Diria: são explosões velozmente laboriosas. O meu labor consiste em fazer com que eu próprio ajuste cada vez mais ao meu gosto pessoal o clima geral do poema já português: a temperatura da imagem, a velocidade do ritmo, a saturação atmosférica do vocábulo, a pressão do adjetivo sobre o substantivo. Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não há infidelidade. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, subrepticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol. É bizarramente pessoal. Mas não há infidelidade que não o seja. Senão, claro, a ainda mais bizarra fidelidade gramatical que, de tão neutra, não pode ser fidelidade.”

In HÉLDER, Herberto. Photomaton & Vox. 3.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, pp. 71-72.


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Volta

Francesca Woodman




















Voltar de viagem
e não caber mais no corpo
habitar o ponto
onde extremos se tocam
ser o rosto que fecha os olhos
e o vulto do outro lado
incapaz de enxergar o limbo
apesar de olhos bem abertos

tanto deixar de ver
e ver-se
que a face escapa do foco
para se instalar no vácuo.


ossecorter

"Efficiency Men" (2005) de Thomas Schütte


1. Antes do café, li o começo do poema “Adiamento”, de um dos heterônimos de Fernando Pessoa.

“Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.” 

2. Não consegui ir adiante. Achei que alguém da nossa esquerda conseguiu voltar no tempo e se passar por Álvaro de Campos.

3. À espera do almoço que sobrou do domingo, com dor dente e de cotovelo, o olho direito caído no prato e não conseguindo fechar as minhas contas, tentei um poema, porém só alcancei meu inconformismo. Ei-lo já de pança cheia.





ossecorter

bando de lobos
deitados vorazmente
em verdes ossos
voltam à lobotomia
revolvem o avesso
golpe sujo
abscesso
logro
gesto abjeto
gastos
joguetes do regresso

José Antônio Cavalcanti


sábado, 23 de julho de 2016

A era da insegurança













nas guerras do século XX
havia os fronts
nos quais se dissolvia
a anatomia de corpos jovens

nos tempos agora mais turvos
as linhas de batalha se ampliaram
com palavras de paz e concórdia
tão falsas quanto a trégua

os combates tomaram conta de todas as cidades
rua por rua
casa por casa
o tempo foi um dos primeiros alvos
a união e a solidariedade
foram declaradas nocivas aos negócios
a alegria, uma ameaça

crateras imensas de solidão
e ruínas invisíveis a olho nu
disparam sombras contra a mesa de café
em que ainda sorrimos
e lemos poemas quase de joelhos
enquanto nanorrobôs
conferem nomes
e preparam longas listas
de pessoas indesejáveis.

mas quem pode enquadrar
nossa ginga
nosso jeito
nossa luta?

Doping




      “Homem, torna-te o que és” - Píndaro

medalha de ouro
placa espetada
no miocárdio
em curto-circuito
metabolismo
em potência máxima
adrenalina
em pernas de bólide
anabolizado
cyborg
record mundial
nos cem metros
para o abismo
sem direito
a ode epiniciana de Píndaro

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Fora de linha





















mínima mensagem
por pura delicadeza
ia de a para b
no entanto
caiu em outro canto
bem no centro do olho
de c
meia dúzia de palavras
com emoticons na cauda
escritas no olho do furacão
levam da calma
à tempestade

sem fala
o emissor
não encontra quem o torna
destin(atári)o

terça-feira, 19 de julho de 2016

Jacques Roubaud

Foto de Alix Cléo Roubaud



















Poema de Jacques Roubaud traduzido por Inês Oseki-Dépré.

Em mim reinava a desolação

Onde tua existência era tão forte. tornara-se forma de ser.
Em mim reinava a desolação. como falando em voz baixa.
Mas as palavras não tinham a força de atravessar.
De atravessar apenas. pois não havia o quê.
Volta-se para o mundo. volta-se para si.
Não se queria habitar de modo algum.
É o núcleo habitual do infortúnio.
“Você” era nossa maneira de tratamento. fôra.
Morta eu não podia mais dizer senão : “tu”.

In Algo: preto. São Paulo: Perspectiva, 2005.


En moi régnait la désolation

Où ton inexistence était si forte. elle était devenue forme d'être.
En moi régnait la désolation. comme conversant à voix basse.
Mais les paroles n’avaient pas la force de franchir.
De franchir seulement. car il n'y avait pas quoi.
On se tourne vers le monde. on se tourne vers soi.
On voudrait n'habiter aucunement.
C'est le noyau habituel de l'infortune.
"Vous" était notre mode d'adresse. l’avait été.
Morte je ne pouvais plus dire que : "tu".

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Eclipse menor


No galho mais alto
o fruto de doce polpa
oculta a lua.

Relações cordiais













Relações cordiais

– O que é isso?
– Terçol.
– Assim, grande e roxo?
– É que eu andei cutucando ele.
– Nos dois olhos?
– Pois é, madame, passou de um pro outro.
– Passou para a perna também?
– Ah, isso foi quando desci do ônibus.
Mas o olhar dizia:  não me pergunte mais nada.

domingo, 17 de julho de 2016

Dois tempos

Balança de pesar escravos

















Outrora
o peso dos negros
em ouro
carne pra córregos
fazendas
minas
pura carnificina

Agora
lançam em branco
jazidas de exclusão
recusas
faltas
avança
velha matança


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...