sábado, 30 de abril de 2016

Carlos Drummond de Andrade


A fábrica




















A fábrica de horrores
do lado direito da rua
nunca fecha as portas
atrás das quais
- em completo sigilo -
multiplica-se,
como helmintos em intestino infecto,
a fila de maldades.

As novas tecnologias
vestem velhas práticas de extermínio.

Precisa-se de juristas de aluguel
para novos rituais de sacrifício.

Precisa-se de jornalistas de R$ 1,99
para a zumbificação das vítimas.

Precisa-se políticos de plástico
para falsa democracia volátil.

Precisa da violência policial
contra o vento que sopra em direção oposta.

Os donos da fábrica de horrores
sempre nas páginas do "homem do ano".

Sempre há vagas
na fábrica de horrores. 


Tristan Corbière




























PAYSAGE MAUVAIS


         Tristan Corbière



Sables de vieux os—Le flot râle
Des glas: crevant bruit sur bruit....
—Palud pâle, où la lune avale
De gros vers, pour passer la nuit.

—Calme de peste, où la fièvre
Cuit.... Le follet damné languit.
—Herbe puante où le lièvre
Est un sorcier poltron qui fuit....

—La Lavandière blanche étale
Des trépassés le linge sale,
Au soleil des loups....—Les crapauds.

Petits chantres mélancoliques
Empoisonnent de leurs coliques,
Les champignons, leurs escabeaux.


* * * *  


Li as traduções de Augusto de Campos e Marcos Siscar. Resolvi aventurar a minha. Fugi ao octossílabo original, optando pelo eneassílabo.


PAISAGEM MÁ


Areias de antigos ossos, a onda
Em cólera, dobra-se ao açoite...
No pântano pálido, redonda
Lua devora vermes, à noite...

Calma de peste, onde alta febre
Queima... Um gênio louco se estiola.
- Erva fétida, fugidia lebre
Invoca um xamã frouxo e se evola...

A alva Lavadeira não se inibe,
A roupa suja da morte exibe
ao sol dos lobos... - Sapos singelos,

Pequenas criaturas melancólicas,
Contaminam com suas próprias cólicas
Chão de caracóis e cogumelos.


sexta-feira, 29 de abril de 2016

Antonio Gamoneda






















Incandescência e ruínas

I

Invoco a cabeça
mais sagrada que exista
sob a neve.

Meu coração azul
canta purificado pelo silêncio.

II

Vândalo de pureza,
fustiga-me. Se falas,
baixarei meus lábios
até a água selvagem.

Da gruta onde
queima o frescor,
há de surgir um rei
sujo de profecias.

Oh coração que vês
em toda a escuridão,
quando estaremos cegos
na luz, quando falarás,
habitante do fogo.

III

Um cão milagroso
come em meu coração.

Cerimônia selvagem:
minha dor se incorpora
ao cão apaixonado.

IV

Na cavidade que conheces,
ecoa uma voz. Língua fria,
tu, que silvas na noite,
metal vivo de palavras,
dizei-me, louco rouxinol
do inverno, dizei-me, tu,
que talvez participes
de matéria luminosa,
a quem anuncias agora
a não ser a morte.

V

Anticanto de amor,
quem te beberá, quem
colocará a boca nesta
espuma proibida.
Quem, que deus, que
asas alucinadas
poderão vir, amar
aqui.

Onde não há nada.






















Incandescencia y ruinas

I

Yo invoco la cabeza
más sagrada que exista
debajo de la nieve.

Mi corazón azul
canta purificado por el silencio.

II

Vándalo de pureza,
hostígame. Si hablas,
yo bajaré mis labios
hasta el agua salvaje.

De aquella gruta donde
abrasa la frescura,
ha de surgir un rey
sucio de profecías.

Oh corazón que ves
en toda oscuridad,
cuándo estaremos ciegos
en luz, cuándo hablarás,
habitante del fuego.

III

Un perro milagroso
come en mi corazón.

Ceremonia salvaje:
mi dolor se incorpora
al perro enamorado.

IV

En la cavidad que sabes,
suena una voz. Lengua fría,
tú, que silbas en la noche,
metal vivo de palabras,
dime, loco ruiseñor
del invierno, dime, tú,
que quizá participas
de una materia luminosa,
a quién anuncias ya
además de a la muerte.

Na cavidade que sabes,
ecoa uma voz. Língua fria,
tu, que silvas na noite,
metal vivo de palavras,
dizei-me, louco rouxinol
do inverno, dizei-me, tu,
que talvez participes
de matéria luminosa,
a quem anuncias agora
a não ser a morte.

V

Anticanto de amor,
quién te beberá, quién
pondrá la boca en esta
espuma prohibida.
Quién, qué dios, qué
enloquecidas alas
podrán venir, amar
aquí.

Donde no hay nada.




Programação do 1º Festival de livrarias do Rio


1º Festival das livrarias do Rio


Folhas e sombras
















Algo se movia no telhado
(escorpião de boca de fogo)
longa estria sonora silvava
estendida entre a caixa d’água
(cinco mil litros de impropriedade
para limpeza de velhos pesadelos)
e incontáveis antenas,
dedos de alumínio contra nuvens vespertinas.
Larguei o copo de café na cozinha,
dez passos nos tacos soltos da sala
puseram-me a rua ao alcance dos olhos.
Tudo o que pude ver
foi o que não podia ser visto,
o peso do vento no tapete de folhas
mortas (sim, algumas ainda se debatiam,
arrancadas a galhos reféns
do balé de pipas que ainda há pouco),
outras guardavam ecos de gargalhadas..
Folhas e folhas rolavam entre carros
e grafites tatuados na linha de muros
da cidade onde o vento me dizia:
“igualdade absoluta entre detento e habitante”.
As folhas à espera de algum sentido,
imobilizadas como ideias antigas nunca
postas em prática,
as folhas sem fotossíntese sem photoshop
sem escaneamento
sem razão
sem argumento.
As folhas levadas de roldão,
insufladas de selvageria
insurgentes
sem pecíolo
rodopiando etílicas
náufragas aéreas
à deriva
dançarinas em bando;
na coreografia do acaso,
rodamoinho,
espiral,
forma aleatória,
leveza inefável.
Lembrei-me do café,
mas já havia infiltração
de folhas nas paredes da sala,
na cozinha,
nas almofadas cerzidas do sofá
escorado por dois tijolos
sobre o qual um conto de Aníbal Machado
abrira misteriosamente suas páginas
para que um menino voasse muito além de qualquer janela.
No vão dos meus olhos espantados
de vento e solidão
tudo era tempestade familiar,
intima estranheza.
Todas as folhas leva(nta)das
todos os poemas do meu caminho
na navalha da ventania.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

Memorabilia




Sacava uma maçã da bolsa como se estivesse sedenta de vingança e precisasse encontrar com urgência punhal justiceiro. Enquanto retirava o papel alumínio, eu tratava de me sentar no lugar mais próximo da invisibilidade para não desabar. Ria como se tivesse ouvido a história mais hilária do mundo, a maçã já completamente exposta. Mordia o fruto edênico com olhos fechados de prazer criminoso. O vermelho da casca realçava dentes de predadora cravados na polpa macia e suculenta. Inexplicável transferência quebrava, então, as leis da física; o vermelho saía da maçã e se infiltrava em meus olhos. Páginas famintas, abertas em pânico, do outro lado da mesa, antes que o sinal anunciasse o fim do recreio, prometiam gestos mortais. Eu levaria quinze minutos para saber o que fazer na sala de aula. Sabia, no entanto, que nunca voltaria ao ponto anterior à ponte desmoronada.


terça-feira, 26 de abril de 2016

Incisão geográfica
















uma baía
é concha
na contracosta
angra
escura
gigante
com água
dentro
do betume
de olhos noturnos
velados
por palavras
molhadas de quimera
onde poetas
pescam
naufrágio
e tempestade


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Baía das lobas marinhas



















dedos ou remos
aranhas em pelos pubianos
erguem em máxima intensidade
o voo inflável
de nau corsária
afundam
todas as velas no oceano
esparramado na cama
azul
os lençóis
bordados a sonho e suor
Vênus insaciável
pernas abertas
a uma frota inteira.


domingo, 24 de abril de 2016

Dias lentos

Lucio Fontana

















Dias lentos

Iremos sem pressa
despejando
monossílabos pelo caminho
porque é nos olhos
que dizemos
a tangência amorosa
antes
que a última curva
separe nossas mãos
molhadas
de chuva e de carinho.



Caderno de rascunho

Caderno de rascunho de Samuel Beckett
















Caderno de rascunho

O lugar onde
nada acontece
ainda
apenas o risco
de (fora da linha)
a palavra
(que não virá)
acontecer.


Gesshu Soko (Japão, 1618-1696)





















O monge zen Gesshu Soko (Japão, 1618-1696) deixou-nos este incrível "Poema da morte":

Inspira, expira,
adiante, atrás,
vivendo, morrendo:

As flechas lançadas
voam umas contra as outras,
no ar se encontram e dividem
o vazio em sua volta.
Assim volto à origem.




Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...