Waly Salomão






Waly Salomão transformava poesia em agito. O texto poético surgia impregnado de verve e invenção da malandragem baiano-carioca conjugadas à experimentação plástico-formal pelas mãos desse baiano de Jequié. Um texto poético construído como inscrição urbana grafitada de cortes e rasuras, com as marcas de oralidade nas faces paródicas dos poemas. Achados, improvisos, uma poesia de liga entre letras e vida, experiência na pele e nos poros. Plástica lábia, papo afiado da magia que alicia e corrompe leitores. Entusiasmós carioca no caos. Inesperado transe poético – Me segura que vou dar um troço.


Exterior

Por que a poesia tem que se confinar
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
da greta
da gruta
e se espraiar em pleno grude
além da grade
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?

Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
- CARPE DIEM! –
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
polimórfica e perversa,
não poder travestir-se
com os clitóris e os balangandãs da lira?

In Lábia. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p. 55.

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