quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O último poema

Marx Ernst, "Une semaine de bonté", 1934. 























A última porta
ainda não foi aberta
(talvez atrás dela
outras à espera),
mas algo expirou
à tarde
antes que nuvens
preparassem a mesa
para a tempestade
em meia dúzia de copos d’água.

O olhar oceânico
na linha-d’água
da página em branco
já não impede que as palavras afundem
(apenas pequena carga de contrabando
segue à deriva).

Rascunhos marítimos
à carne verbalizada
tornam-se letras ilegíveis
impulsionadas a esmo
no mar de março.

Sem o salva-vidas da poesia,
preso à polpa suculenta do nada,
procuro o bote de salvação
que me leve
ao inferno mais próximo.

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