quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Carlito Azevedo





Do novo livro de Carlito Azevedo - um daqueles textos que você lê e sorri, enquanto balança a cabeça afirmativamente, se sentindo igual:

“O contrabaixista Ron Carter dizia que sua função num quinteto de jazz (e ele tocava no quinteto de Miles Davis) era tocar sempre a nota que impedisse os outros músicos de tocar a nota que eles imaginavam que iam tocar, obrigando-os sempre a encontrar uma nota inesperada. Penso nessa frase, obsessivamente, mesmo sem ser músico, e acho que é porque no fundo a vida, tal como a vivo, é o meu Ron Carter, sempre fazendo soar a nota que me impede de tocar a nota que eu achava que ia tocar, e me obrigando a encontrar outra, à queima-roupa, numa fração de segundo. Às vezes desafino feio, falho, perco o tom e o rebolado, e os amigos me vão recolher no lixo, entre trapos de lágrimas, gatos e espinhas de peixe, e outras vezes mando tão bem que o pequeno público do enfumaçado e noturno pub dos corações solitários se levanta, dança na pista e entre as mesas, esboça sorriso entre as lanterninhas japonesas dos cigarros e ao final aplaude e grita, olhos brilhando: mais um! E eu toco um novo solo feito das lembranças de ter sido recolhido no lixo, entre trapos de lágrimas, gatos e espinhas de peixe. Disse o Paul Valéry que um leão é feito de carneiros devorados, eu sou um carneiro feito de leões ferozes ludibriados.”

In Livro das postagens. Rio de Janeiro: 7Letras, 2016, pp.56-57.

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