Arnaut Daniel (1180-1210?)

























Todos os poetas da minha geração tomaram contato com este trovador provençal graças ao excepcional trabalho de Augusto de Campos, cujo livro Verso Reverso Controverso, de 1978, colocou em circulação de modo mais intenso a poesia provençal no corpo da poesia brasileira contemporânea.

Para Pound a “arte de Arnaut não é literatura, é a arte de combinar palavras e música numa sequência em que as rimas caem com precisão e os sons se fundem ou se alongam. Arnaut tentou criar quase uma nova língua, ou pelo menos ampliar a língua existente e renová-la”.

No pequeno estudo introdutório às canções do poeta provençal, publicado no livro Invenção (São Paulo: Editora Arx, 2003), leitura fundamental a quem se interessa por poesia, de onde retirei o poema (p. 98-105), Augusto de Campos resumiu à perfeição a arte de Arnaut: “Oito séculos nos separam, pois, dessas 18 canções. Repito. Há mais que aprender com elas do que com muitos maciços volumes de obras completas do que vieram antes ou depois. A flor da poesia de Arnaut está intacta. O tempo não roubou seu saber nem seu sabor. E “l’olors de noigandres” continua a nos livrar do tédio e a nos incitar ao novo”.


Ieu sui Arnautz qu’amas l’aura
e chatz la lebre ab lo bou
e nadi contra subera.

Eu sou Arnaut que am(ass)o (l)a(u)r(a),
e caço a lebre com o boi
e nado contra a maré.
























L’AURA AMARA

L’aura amara
fa•ls bruoills brancutz
clarzir
que•l doutz espeissa ab fuoills,
el•s letz
becs
dels auzels ramencs
ten balps e mutz,
pars
e non pars;
por qu’eu m’esfortz
de far e dir
plazers
a mains, per liei
que m’a virat bas d’aut,
don tem morir
si•ls afans no m’asoma.

Tant fo clara
ma prima lutz
d’eslir
lieis don cre•l cors los huoills,
non pretz
necs
mans dos aguilencs;
d’autra s’es dutz
rars
mos preiars:
pero deportz
m’es ad auzir
volers,
bos motz ses grei
de liei, don tant m’azaut
qu’al sieu servir
sui del pe tro c’al coma.

Amors, gara,
sui ben vencutz,
c’auzir
tem far, si•m desacuoills,
tals d’etz
pecs
que t’es mieills que•t trencs;
qu’ieu soi fis drutz,
cars
e non vars,
ma•l cors ferms fortz
mi fai cobrir
mains vers;
c’ab tot lo nei
m’agr’ ops us bais al chaut
cor refrezir,
que no•i vai autra groma.

Si m’ampara
cill cui•m trahutz,
d’aizir,
si qu’es de pretz capduoills,
dels quetz
precs
c’ai dedinz a rencs,
l’er fors rendutz
clars
mos pensars:
qu’eu fora mortz,
mas fa•m sofrir
l’espers
que•ill prec que•m brei,
c’aisso•m ten let e baut;
que d’als jauzir
no•m val jois una poma.

Doussa car’, a
toit aips volgutz,
sofrir
m’er per vos mainz orguoills,
car etz
decs
de totz mos fadencs,
don ai mains brutz
pars,
e gabars;
de vos no•m tortz
ni•m fai partir
avers,
c’anc non amei
ren tan ab meins d’ufaut,
anz vos desir
plus que Dieu cill de Doma.

Era•t para,
chans e condutz,
formir
al rei qui t’er escuoills;
car Pretz,
secs
sai, lai es doblencs,
e mantengutz
dars
e manjars:
de joi la•t portz,
son anel mir,
si•l ders,
c’anc non estei
jorn de’Aragon qu’el saut
no•i volgues ir,
mas sai m’a clamat Roma.

Faitz es l’acortz,
qu’el cor remir
totz sers
lieis cui dompnei
ses parsonier, Arnaut,
qu’en autr’albir
n’es for m’entent’a soma.


AURA AMARA

Transcriação de Augusto de Campos

Aura amara
branqueia os bosques, car-
come a cor
da espessa folhagem.
Os
bicos
dos passarinhos
ficam mudos,
pares
e ímpares.
E eu sofro a sorte:
dizer louvor
em verso
só por aquela
que me lançou do alto
abaixo, em dor
— má dama que me doma.

Foi tão clara
a luz do seu olhar
que em meu cor-
ação gravou a imagem.
Dos
ricos
rio, seus vinhos,
damas e ludos
parec-
em-me vulgares.
Só tenho um norte:
morrer de amor
imerso
no olhar da bela
que me tomou de assalto,
seu servidor
ser, dos pés até a coma.

Amor, para!
Que queres mais provar?
Por que tor-
turares o teu pajem,
só os
picos
dos teus espinhos
pontiagudos
dares,
flores negares?
A alma é forte,
mas o cor-
po inverso
já se rebela
e quer de um salto
colher a flor
de boca, beijo e aroma.

Se me ampara
essa a quem vivo a orar,
no calor
da sua hospedagem,
jus-
tifica os
meus descaminhos,
muda os
pesares
dos meus pensares.
Mas antes morte
contrapor
adverso
do que perdê-la,
só meu sobressalto.
Que o seu valor
é mais que qualquer soma.

Face cara
que me faz pervagar
sem temor
atrás de uma miragem,
nos becos,
pelos caminhos
mais desnudos,
por ares
e por mares,
em louco esporte.
Surdo ao rumor
perverso,
somente a ela
sobreamo, falto
de senso, amor
maior que a Deus tem Doma*.

Vai, prepara
canções para doar,
trovador,
ao rei em homenagem.
Rús-
ticos
pães, duros linhos
serão veludos,
rarís-
simos manjares.
Parte com porte.
Embora em dor
subverso,
venera o anel**. A
Aragon, baldo,
vai teu ardor,
pois quem comanda é Roma***.

Ei-la em seu forte.
Combatedor
converso,
em sua cela
sou prisioneiro, Arnaldo.
Esse sabor
de amor ninguém me toma.


* Doma: aldeia de Périgord, onde havia um mosteiro no alto de uma montanha.
** O anel: trata-se do anel de Alfonso, rei de Aragão, ao qual o poeta deveria prestar tributo.
*** Roma: a alusão é obscura. Segundo uma interpretação, Arnaut tomou o hábito monástico, trocando Aragão, onde teria deixado alguém que amava, pela religião de Roma. Toja considera legendário esse episódio biográficoe, adotando a lição de Appel, lê “roma” como imperativo do verbo “romaner” (permanecer).

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