segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Ana Paula Ribeiro Tavares





Ana Paula Ribeiro Tavares nasceu no Lubango, província da Huíla, a 30 de Outubro de 1952. Passou parte da sua infância naquela província, onde fez os seus estudos primários e secundários. Iniciou o seu curso de História da Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED-Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o Mestrado em Literaturas Africanas. Actualmente vive em Lisboa, onde lecciona na Universidade Católica de Lisboa, encontrando-se a fazer o seu doutoramento. 
Sempre trabalhou ligada à área cultural, tendo actuado como profissional em diferentes áreas da cultura como a Museologia, Arqueologia e Etnologia, Património, Animação Cultural e Ensino. Participou em simpósios, congressos, comissões de estudo e elaboração de inúmeros projectos da área cultural. Foi Delegada da Cultura no Kwanza Norte, técnica do Centro Nacional de Documentação e Investigação Histórica (hoje Arquivo Histórico Nacional), do Instituto do Património Cultural. 
?A Huíla desempenhou um papel particular em «termos» de cheiros, sons, cores, canções que me marcaram muito do ponto de vista estético. Essa era procura. Por outro lado, eu vivi esse tempo no limite entre duas sociedades completamente distintas ? e talvez não tenha conseguido compreender nenhuma das duas. Por isso tentei reflectir e escrever sobre partes de uma e partes de outra que me marcaram fundamentalmente. A Huíla, tal qual era na minha juventude, era o limite entre duas sociedades bem distintas: a sociedade europeia ? é uma cidade com muitas características europeias: uma cidade de planalto, onde faz frio, e verde... E, por outro lado, uma sociedade africana que era ignorada pela cidade europeia.? In: Michel Laban. Angola. Encontro com Escritores. Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1991, II vol. p. 849. 
É membro de diversas organizações culturais como o Comité Angolano do Conselho Internacional de Museus (ICOM), Comité Angolano do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS), da Comissão Angolana para a UNESCO. É também membro da UEA. 
Tem poemas escritos em diversos jornais e revistas angolanos e internacionais como em Portugal, Brasil, Cabo Verde. As suas obras publicadas são: Ritos de Passagem (1985), O Sangue da Buganvília (1998), O Lago da Lua (1999). 
Ao falar sobre a Literatura angolana no feminino, Inocência Mata refere-se à ?maturidade que a escrita etnograficamente ritualística de Paula Tavares expressa... desde o título, passando pela significação do texto pictórico da capa o macro-poema de cada obra anuncia um intenso lirismos ? poesia lírica no sentido de conter uma experiência individual e uma subjectiva postura mental perante a realidade do mundo. Mais adiante a crítica literária diz: há um apelo à imaginação, pelo recurso a imagens sinestéticas (Mistura de imagens sensoriais, como na poesia de Paula Tavares, principalmente na citação de frutos para simbolizar as características femininas).
A lírica de Paula Tavares reunida (incompletamente) em «Ritos de Passagem» coloca, logo desde esse título, o problema da feminilidade e, com ele, o problema de uma literatura feminina. Metaforicamente falando nos serve, também, para estudarmos a passagem da literatura ainda formada no regime colonial à de poetas amadurecidos após a independência do país. Mas, ao apelar para tradições locais (e do Sul, neste caso), o verso da Paula Tavares reinsere-se clara e assumidamente na linha de cruzamento dos discursos «ocidentais» (da Europa e Estados Unidos, em primeiro lugar) com os africanos.

Fonte: www.uea-angola.org

Obra poética:
1985. Ritos de Passagem: poemas (poesia), Col. «Cadernos Lavra & Oficina», 55, Luanda, UEA, 1985 [Col. «Outras Margens», nº 0; ilustrado a preto e branco, Lisboa, Ed. Caminho, 2007]. 
 1998. Sangue da Buganvília: crónicas (prosa), Col. «Encontro de culturas», Cabo Verde, Praia-Mindelo, Embaixada de Portugal, Centro Cultural Português Praia-Mindelo, 1998.  
 1999. O Lago da Lua (poesia), Col. «O Campo da Palavra», nº 65, Lisboa, Ed. Caminho, 1999. 
2001. Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (poesia), Col. «Caminho da Poesia», nº 70, Lisboa, Ed. Caminho, 2001 [Prémio Mário António de Poesia/2004, da Fundação Calouste Gulbenkian]. 
2003. Ex-Votos: poesia (poesia), Col. «Outras Margens», nº 20, Lisboa, Ed. Caminho, 2003.  
 2004. A Cabeça de Salomé: crónicas (prosa), Col. «Outras Margens», nº 33, Lisboa, Ed. Caminho, 2004.  
2005. Os Olhos do Homem que Chorava no Rio (narrativa ficcional: romance), em co-autoria com Manuel Jorge marmelo, Col. «O Campo da Palavra, nº 139, Lisboa, Ed. Caminho, 2005.  
2007. Manual Para Amantes Desesperados (poesia), Col. «Outras Margens», nº 61, Lisboa, Ed. Caminho, 2007.

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Canto de nascimento

Aceso está o fogo
prontas as mãos
o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.
As mãos criam na água
uma pele nova
panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar
Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga
a lua pousada na pedra de afiar
Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas
As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras
Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.
Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

In O lago da lua, 1999.
 

Pintura de Isabel Mourão




















Mukai*
  
1

Corpo já lavrado
eqüidistante da semente
é trigo
é joio
milho híbrido
massambala

resiste ao tempo
dobrado
exausto
sob o sol
que lhe espiga
        a cabeleira.

2

O ventre semeado
deságua cada ano
os frutos tenros
das mãos
   (é feitiço)
nasce
a manteiga
a casa
o penteado
o gesto
acorda a alma
a voz
olha p'ra dentro do silêncio milenar.

3

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

4

O risco na pele
acende a noite
enquanto a lua
     (por ironia)
ilumina o esgoto
anuncia o canto dos gatos
De quantos partos se vive
para quantos partos se morre.

Um grito espeta-se faca
na garganta da noite

recortada sobre o tempo
pintada de cicatrizes
olhos secos de lágrimas
Dominga, organiza a cerveja
de sobreviver os dias.

* Mukai: - mulher






















November without water

Olha-me p'ra estas crianças de vidro
cheias de água até às lágrimas
enchendo a cidade de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes do lixo.

Olha-me estas crianças
      transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até aos bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.























Desossaste-me

Desossaste-me
                         cuidadosamente
inscrevendo-me
                         no teu universo
                         como uma ferida
                         uma prótese perfeita
                         maldita necessária
conduziste todas as minhas veias
                         para que desaguassem
                         nas tuas
                                      sem remédio
meio pulmão respira em ti
o outro, que me lembre
                         mal existe

                                    Hoje levantei-me cedo
                                    pintei de tacula e água fria
                                                 o corpo aceso
                                    não bato a manteiga
                                    não ponho o cinto

                        VOU
                        para o sul saltar o cercado


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...