Frutos do mar




Frutos do mar

Chegou tenso, com uma cor esverdeada no rosto, ao restaurante à beira-mar. Duas baleias marcavam duas da tarde no relógio azul além-areia. Pôde vê-las atrás das ondas e da cortina de atletas e ciclistas na pista da Avenida Atlântica. As nuvens pesadas eram rasgadas pelo sol, seus trapos cinzas se desmanchavam preguiçosamente no varal do horizonte em reconstrução.

Olhos pregados na biografia de Marighella, meia hora depois, no meio da décima linha da página 356, Lilith emergiu da piscina dos dias perdidos. Trazia uma harpa de argila e fios de ouro abaixo de seus olhos de tempestade. A intensidade do olhar lançou areia e memória à paralisia do leitor atordoado. Lilith se sentou, amistosa, palavras soltas ao vento, direta e incisiva, sacudindo os cabelos e a vida do homem de óculos tortos. Ele nada sabia sobre as fogueiras secretas que nela nunca cicatrizavam. Míope e desatinado, ampliara, por cegueira e falta de gentileza, o próprio deserto, cortara em finas fatias camadas de afeto, polvilhando-as de sal e luto. 

Alojados um frente ao outro, após uma longa pausa e um tremor na língua, o homem decidiu-se:

– Garçom, por favor, traga, em duas bandejas de prata, os seios de Penélope e a cabeça de Helena de Troia. 

Então, Lilith, com astúcia de assassina, voltou-se em direção ao mar, a fim de  ver, aliviada, o navio de Ulisses afundar lentamente. Pudesse olhar em outra direção, teria observado dois olhos em escombros mergulhando nela até tocarem o fundo do oceano.

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