sábado, 5 de novembro de 2016

É domingo e chove


Maria Cheung















Sentado no meio da escadaria
vejo pernas apressadas,
rede de varizes impressas,
solidões exaustas
em cestos vazios de cheiros alheios,
mãos sem enlace
do primeiro ao último degrau,
dominicais famílias em trânsito
tangidas como fantasmas migrantes.

Mesmo a velocidade
das mais portentosas
parece carregá-las a um ponto obscuro
além da ladeira torta
do morro em disputa.

Quanto peso carregarão as minhas pernas?
Como aguentam as montanhas dos meus arcanos
e suas avalanchas sangrentas
de álcool, gelo, lava e lama?
Esse silêncio estufando a pele
ao limite da explosão?
A desorientação de quem sabe aonde não ir,
mas não sabe para onde ir?

Minhas pernas presas
eternas
presas
dos meus naufrágios.



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