Cessou a chuva





















A noite,
em silêncio,
secou a tarde
estendida na rua.

Descerro os olhos
e desenho ausências
na calçada da página.

Em sala sombria,
sem acesso a teu corpo selvagem,
observo a muda passagem de cometas
sem cauda,
sem coroa,
sem brilho.
Deixam um sulco invisível
à sombra de estrelas inclementes.

Dou adeuses às palavras
que emergem atônitas
do centro da página.
Revoltadas, me indagam:
–  realidade ou pesadelo?

Invento evasivas
com um pássaro de azul e açúcar
no olhar.
Engesso sentimentos
em clichês de nonsense.
Ah, exímio artesão de coisas mortas!

As palavras zombam do meu estro.
Atiram-me vírgulas e acentos.
Dizem-me pilhérias,
impropérios.

Rancorosas,
roubam-me a caneta
e se escrevem.

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