terça-feira, 15 de novembro de 2016

Anjos




















Anjos *

           O último anjo derramou seu cálice no ar. – Murilo Mendes

Não o da melancolia de Dürer,
olhos exilados de signos,
exausto de garimpar as sílabas
de nome nunca revelado.

Não os prosaicos e suspensos
anjos de Chagall
descascando pecados
acima de chão de cebolas.

Muito menos o de Benjamin,
de costas para o futuro
em voo pesado, obscuro.

Sequer aquele caído nas sombras
de Drummond
em torta escrita de tropeços.

Nem a criatura terrível de Rilke,
de asas lavadas em ira e arrogância,
escriba e vigia de nossa agonia.

Um anjo também me assombra
só para sangrar-me.
Anjo apóstata e herege,
corrói com asas de inseto
caminhos e projetos.
Examina com tédio e desapreço
os índices de pânico e de esperança
depois de devastar minhas reservas
de azul..
Intrigante e pérfido,
sussurra-me conselhos obscenos,
pragas,
impropérios.

Mostra-me o seio esquerdo
e me olha envenenado,
mensageiro sem mensagens,
desertor de Deus e do homem.

Em sua última visita
na calada da noite de algas e liquens,
corpo macio colado ao meu,
dupla inscrição de naufrágio
risca as placas e as paredes da cidade.


* Poema publicado, com pequenas modificações, no livro Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013, pp. 104-105.

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