Meu candidato, poema ético com o pescoço esticado ao sentimental

Escultura de Michael Alfano



Sei que a elite está cagando e andando para as eleições, afinal acabaram de jogar no lixo 54 milhões de voto. Mas como as vítimas gostam de escolher os carrascos, e como hoje estou inebriado com canções primaveris transbordando do meu coração de alfenim, resolvi parar de chamar eleição de farsa e entrar delicadamente nos mimosos salões onde urnas se confundem com malas de dólares. Espero que este poema tão pungente funcione como passaporte.

Meu candidato, poema ético com o pescoço esticado ao sentimental

Não voto no “fala mansa”, não voto no “fala bonito”, não voto no “fala limpinho e cheiroso”,  não voto no “fala grosso”, não voto no “fala sombria”, não voto no “fala cobras e lagartos”, não voto no “que fala mais alto”, não voto no “só fala o que não deve”, não voto no “fala fala e não diz nada”, não voto no “só fala merda” nem em qualquer candidato que diga “a educação será a prioridade do meu governo” (vontade de vomitar). Para ganhar meu voto tem que ficar pelado(a) durante toda a campanha, trepar sem descanso quinze luas seguidas, cheirar um helicoca, fumar um caminhão do exército com meia tonelada de maconha, cuspir no presidanta ao vivo com gosma verde natural, trazer as vítimas de 144 pretos pobres da periferia mortos por engano, recitar de cor as cinco partes do poema “A terra desolada” (tradução de Ivan Junqueira), de trás para frente, beber três alambiques, viajar de sputinik, dançar cúmbia treze noites seguidas  e dar início ao apocalipse.

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