Faunosfera


"Faun Revealing a Sleeping Woman" (Jupiter and Antiope, after Rembrandt), 1936, Pablo Picasso


















Faunosfera *

1. Fauno em várzea noturna
    fortuna infausta
    o amor: funda afasia
    corpos em urnas
    carnes, licores, bruma.

2. Faunos e ninfetas,
    galeria de infâmias
    nos lupercais lupanares da Lapa.

3. Sombras demoníacas nos muros,
    vítimas nas esquinas,
    tapetes afegãos na varanda.

4. Dinofaunos furtam a ninfetas
    fragrâncias clandestinas
    sob a lua míope e devassa.

5. Um fauno verte absinto pelos cornos
    como a lua absorve em secreta órbita,
    no cobre de crateras macedônias,
    o rubro licor de virgens tessálicas.

6. Noturna sereia,
    no cabaré da Lapa,
    não cabe
    indecisa nudez.

7. Peças
    saltam ao chão,
    desenham um pecado de cada vez.

8. Neste recinto oracular
    em vermelho soalho mofado
    blusas batas burkas
                              bêbadas
    profanadas.

9. Manual de instalação de desatinos,
    regras de abuso, senhas de violação:
    vírus no código da carne vodu.

10. Ruínas urbanas as avenidas vênus
      plenas de ícones egípcios, bíblicos, suburbandos.
      Mover-se na parte rasurada dos mapas:
      odisseia de perversão e sant(C)idade.

11. Eromágicos movimentos:
      bacantes, ninfas e hetairas,
      balé de pólen e vento.

12. Entrar e sair de becos, bocas, grutas.
      Invadir a cena, a festa, a fescenina
      cerimônia da câmara íntima feminina.

13. Pã aposentou navalha e avena;
      exilado dos cenários bucólicos das colinas cariocas
      (e fugitivo de penitenciária espartana)
      inferniza damas em (in)cômodos Tiradentes.

14. Cosmonáufrago, demônio da garrafa,
      incendeia de cachaça e carícias os corpos
      caravelas de amantes anônimas e insensatas.

15. A plenos pulmões, fauno de camisa amarela,
      no soviete dionisíarcos da Lapa, recita
     a cento e cinquenta milhões de ninfálicas
     a desgrama amorosa para o milênio do caos.

16. Paixão de fauno é selo no ventre;
      impregna os monossílabos do gozo
      com o fogo da fúria e da intensidade
      e crava o agora no sempre.

17. O amor causa danos, contudo
      dama sem alma arma um plano
      escrito com os corpos na cama
      e lança o fauno de cara na lama.

18. Dos negros montes pubianos
      o fálico ser aceso vê
      a grande rota das caravanas.

19. O tempo inclemente colheu o calor.
      O fauno, no meio da malandragem,
      sem flauta e sem cavaquinho, decanta
      a fraude amorosa, a erofágica libação.

20. Torcer, retorcer, distorcer,
      conjugar o corpo crepuscopular
      no grau grisalho da queda.

21. Ninfetas-manequins sem afeto
      em sépias lilases e magentas
      mãos hábeis na flor e no furto
      simulam caos, orgasmo e adeus.


* Poema publicado no livro Anarquipélago, Editora Ibis Libris, 2013.

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