sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Faunosfera


"Faun Revealing a Sleeping Woman" (Jupiter and Antiope, after Rembrandt), 1936, Pablo Picasso


















Faunosfera *

1. Fauno em várzea noturna
    fortuna infausta
    o amor: funda afasia
    corpos em urnas
    carnes, licores, bruma.

2. Faunos e ninfetas,
    galeria de infâmias
    nos lupercais lupanares da Lapa.

3. Sombras demoníacas nos muros,
    vítimas nas esquinas,
    tapetes afegãos na varanda.

4. Dinofaunos furtam a ninfetas
    fragrâncias clandestinas
    sob a lua míope e devassa.

5. Um fauno verte absinto pelos cornos
    como a lua absorve em secreta órbita,
    no cobre de crateras macedônias,
    o rubro licor de virgens tessálicas.

6. Noturna sereia,
    no cabaré da Lapa,
    não cabe
    indecisa nudez.

7. Peças
    saltam ao chão,
    desenham um pecado de cada vez.

8. Neste recinto oracular
    em vermelho soalho mofado
    blusas batas burkas
                              bêbadas
    profanadas.

9. Manual de instalação de desatinos,
    regras de abuso, senhas de violação:
    vírus no código da carne vodu.

10. Ruínas urbanas as avenidas vênus
      plenas de ícones egípcios, bíblicos, suburbandos.
      Mover-se na parte rasurada dos mapas:
      odisseia de perversão e sant(C)idade.

11. Eromágicos movimentos:
      bacantes, ninfas e hetairas,
      balé de pólen e vento.

12. Entrar e sair de becos, bocas, grutas.
      Invadir a cena, a festa, a fescenina
      cerimônia da câmara íntima feminina.

13. Pã aposentou navalha e avena;
      exilado dos cenários bucólicos das colinas cariocas
      (e fugitivo de penitenciária espartana)
      inferniza damas em (in)cômodos Tiradentes.

14. Cosmonáufrago, demônio da garrafa,
      incendeia de cachaça e carícias os corpos
      caravelas de amantes anônimas e insensatas.

15. A plenos pulmões, fauno de camisa amarela,
      no soviete dionisíarcos da Lapa, recita
     a cento e cinquenta milhões de ninfálicas
     a desgrama amorosa para o milênio do caos.

16. Paixão de fauno é selo no ventre;
      impregna os monossílabos do gozo
      com o fogo da fúria e da intensidade
      e crava o agora no sempre.

17. O amor causa danos, contudo
      dama sem alma arma um plano
      escrito com os corpos na cama
      e lança o fauno de cara na lama.

18. Dos negros montes pubianos
      o fálico ser aceso vê
      a grande rota das caravanas.

19. O tempo inclemente colheu o calor.
      O fauno, no meio da malandragem,
      sem flauta e sem cavaquinho, decanta
      a fraude amorosa, a erofágica libação.

20. Torcer, retorcer, distorcer,
      conjugar o corpo crepuscopular
      no grau grisalho da queda.

21. Ninfetas-manequins sem afeto
      em sépias lilases e magentas
      mãos hábeis na flor e no furto
      simulam caos, orgasmo e adeus.


* Poema publicado no livro Anarquipélago, Editora Ibis Libris, 2013.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Carona para o inalcançável





















você abria o vidro
com a mão direita
apesar do cigarro
e do rádio
aberto no peito
espalhando
as pérolas negras
de luiz melodia ao vento

não eu não podia ler
placas
destinos
quilometragens
seus palavrões suas gargalhadas
atravessavam a estrada
quando minhas mãos
invadiam desvios
você lançava fumaça na minha cara
puxava meus óculos
a mais de cem por hora

o tempo
espalha os que se amam
estrada afora
mas há caronas
que vão muito além
de qualquer viagem
como se nos dissessem
que na vida
só vale o que se extravia.

sábado, 24 de setembro de 2016

Ilê Aiyê e Criolo - Ilê Aiyê | Que Bloco É Esse?

Livro de visitas
























Enigmática
língua
inscrita
no livro de visitas
do silêncio.

Guardar
ou apagar
sentenças
inacessíveis?

Talvez
ainda ágrafa
a linguagem
da permanência.

Todos os nomes
são escritos
com letras voláteis
em linhas instáveis.

Só o silêncio
sempre mantém
todas as páginas abertas.

Orides Fontela




















Uns vão de Ferrari, eu vou de Orides Fontela.

Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Meu candidato, poema ético com o pescoço esticado ao sentimental

Escultura de Michael Alfano



Sei que a elite está cagando e andando para as eleições, afinal acabaram de jogar no lixo 54 milhões de voto. Mas como as vítimas gostam de escolher os carrascos, e como hoje estou inebriado com canções primaveris transbordando do meu coração de alfenim, resolvi parar de chamar eleição de farsa e entrar delicadamente nos mimosos salões onde urnas se confundem com malas de dólares. Espero que este poema tão pungente funcione como passaporte.

Meu candidato, poema ético com o pescoço esticado ao sentimental

Não voto no “fala mansa”, não voto no “fala bonito”, não voto no “fala limpinho e cheiroso”,  não voto no “fala grosso”, não voto no “fala sombria”, não voto no “fala cobras e lagartos”, não voto no “que fala mais alto”, não voto no “só fala o que não deve”, não voto no “fala fala e não diz nada”, não voto no “só fala merda” nem em qualquer candidato que diga “a educação será a prioridade do meu governo” (vontade de vomitar). Para ganhar meu voto tem que ficar pelado(a) durante toda a campanha, trepar sem descanso quinze luas seguidas, cheirar um helicoca, fumar um caminhão do exército com meia tonelada de maconha, cuspir no presidanta ao vivo com gosma verde natural, trazer as vítimas de 144 pretos pobres da periferia mortos por engano, recitar de cor as cinco partes do poema “A terra desolada” (tradução de Ivan Junqueira), de trás para frente, beber três alambiques, viajar de sputinik, dançar cúmbia treze noites seguidas  e dar início ao apocalipse.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Colmeia




















Sono repartido em covas
coma em colmeia
mente vazia de mel e maná
almas algemadas em redomas
corpos cegos sob hipnose
bolhas código de barras comandos
a flor sem pétala do espetáculo
espetada no centro do palco
bomba de cobalto no peito
nuvens de informações inúteis
no céu de pura irrelevância
mas baixa no alto da noite
mínima chama incontrolável
algo se quebra e parte o deserto
basta uma sílaba
para oásis e êxtase.



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O lado de fora do poema

Robert Walser, "Microscript 215, October - November 1928," detail




















não se abre
ao fechar-se um livro
como alguém
que batesse portas
e selasse janelas
entre aposentos distintos

é preciso
um certo tempo
para alcançarmos
o que vive fora
do poema
um tempo precioso
inesgotável
e isso é tão verdade
que morremos
antes de descobrir
se algo realmente existe
fora do poema

domingo, 18 de setembro de 2016

“The imperfect is our paradise” – Wallace Stevens















The imperfect is our paradise” – Wallace Stevens

A poesia tem me chamado.
Finjo que não escuto.
Às vezes não falamos
a mesma língua
ou não dizemos nada
um ao outro.
E existe também o outro lado:
sempre que a procuro
a casa está vazia,
a luz acesa nos olhos,
cansados da demora,
almeja ser apagada
e o ar irrespirável
é um convite à retirada.
Tudo o que sobra
na noite em claro
são poemas que não deram certo
e dezenas,
dezenas de xícara de café.



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Long long long play














Quando o disco
girava
na vitrola
música e bebida
abraçadas
na roda
no meio da sala
gravavam
na memória
pequena alegria
para ser ouvida
no futuro
em dias propícios ao suicídio
e assegurar
que a vida vale
pelo ouro guardado
em mínimos intervalos.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Os dez mil mandamentos


























Os dez mil mandamentos

Quantos nomes proscritos
— Rafael Braga, Lamarca, longa lista —
lacunam tantas preces
ao bom Deus dos eleitos
para a aceitação de leis
em fraude-flatulência
de regurgitante entusiasmo
pelo pátrio progresso pútrido
ou tudo não passa de oferta
devotamente necessária
de novos Isaacs a Moloch
a fim de que trinta moedas
de contas secretas
expelidas pelo ânus em festa
sejam lavadas
em bacias de prata
aos pés dos soberanos
enquanto se ergue no peito
a insígnia morte e progresso?




segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Liga de língua - Arquivo I

Paul Strand, Typewriter Keys, 1916.























Primeiramente
Quase
Depois
Até mesmo
Inclusive
Daí
Contudo
Logo
Em seguida
Então
Aliás
Na verdade
Por um lado
Às vezes
Por outro lado
Afinal
Além disso
Apenas
Mal
Agora
Também
Embora
Assim sendo
Quase
Além disso
Não obstante
Ainda que
Ou seja
Mesmo assim
Ao menos
Exceto
Finalmente

domingo, 11 de setembro de 2016

Currículo





















Nasci em dia de chuva
em outro século
(não sei se Deus estava enfermo)
desde então ando em círculos
fiz isso
fiz aquilo
mas não sou nada disso
como veem
preencho todos os requisitos
para o sepulcro.

sábado, 10 de setembro de 2016

Longe – versão 2016

Lygia Pape
























Longe:
advérbio
de distância variável.
Flutua
a memória magoada,
ora plena,
ora pura opacidade.

Longe:
advérbio de solidão,
sintaxe intoxicada
pelo gás carbônico
de ruas rasuradas,
despovoadas
de coletivos, conectivos.

Longe:
advérbio de perda,
sílabas-serpentes
a percorrer ásperos planaltos
que se desfazem na noite
fora de limites.

Longe:
adjetivo espacial,
alguém
na linha de descontinuidade
das contingências
escapa ao olhar
entre origem e margens.
Sem substância,
insubordinado
ser
se apaga
muito além de depois,
um pouco antes de jamais.

Longe:
substantivo impróprio.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Manuel Maria Barbosa du Bocage














Escreveu Bocage, próximo ao fim do século XVIII, alguns poemas críticos ao despotismo em Portugal. Isso contribuiu para que o convidassem a gozar dos privilégio de uma prisão por crime de lesa-majestade, afinal todos os tiranos impõem elogios ou silêncio. Encontrei o poeta português hoje no Largo de Pilares, atônito, mais de duzentos anos depois, sem saber o que escrever. Ao pegar o ônibus para Duque de Caxias, deixou cair este poema.

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, oh Liberdade!

Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...