segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Poema da partida













Cais não sou.
Em mim amarras
não formam amálgama
de amor e algas.
A lua de gala
de qualquer nave
são ânsias de ave
em corpo de âncoras.

Cais não sou,
antes calado.
Em mim palavras
passeiam descabeladas;
o vento no ouvido
e nas camisolas
sopra no porto
portas descascadas.
O eco encardido
assobia partidas.

Cais não sou,
antes o sulco
do lado oposto do casco,
o risco de ser exposto
a rochas e ângulos mortos.
A pressa das velas
desaba o horizonte.
Despovoada, a cidade
deserda chegadas.
O amor a léguas,
naufrago nas águas
ao largo
de ilha indizível.

Cais não sou,
sequer cantor.
Giro o leme em direção incerta,
pinto o vento de azul,
afundo meu anticanto
como carga de contrabando
perdida na tempestade.

Sou colecionador de abismos.


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