sábado, 27 de agosto de 2016

Nome em fuga


Disco de Phaistos












Persigo
nome arcaico
em outro idioma.

Soubesse me livrar
do peso azul a que remete,
poderia bebê-lo com as mãos.

Expansão

Foto de Francesca Woodman
















Aquém
de mim mesmo
re-colho-me
inteiro.


Atravesso
no ponto máx
imo
de contração
o além
onde in
tensas
vivem
todas
as palavras
desfeitas
no vácuo.

Oferta

Max Ernst




















Palavra,
fina oferta
a um céu vazio. 

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Morada

                                 
Joaquín Torres-García 


                                          Res
                                                ido
                                          em casa
                                          d
                                          e
                                          s
                                          m
                                          o
                                          r
                                          o
                                          nada;
                                          tijolo de sílaba,
                                          telha de lábia.


Poema da partida













Cais não sou.
Em mim amarras
não formam amálgama
de amor e algas.
A lua de gala
de qualquer nave
são ânsias de ave
em corpo de âncoras.

Cais não sou,
antes calado.
Em mim palavras
passeiam descabeladas;
o vento no ouvido
e nas camisolas
sopra no porto
portas descascadas.
O eco encardido
assobia partidas.

Cais não sou,
antes o sulco
do lado oposto do casco,
o risco de ser exposto
a rochas e ângulos mortos.
A pressa das velas
desaba o horizonte.
Despovoada, a cidade
deserda chegadas.
O amor a léguas,
naufrago nas águas
ao largo
de ilha indizível.

Cais não sou,
sequer cantor.
Giro o leme em direção incerta,
pinto o vento de azul,
afundo meu anticanto
como carga de contrabando
perdida na tempestade.

Sou colecionador de abismos.


domingo, 21 de agosto de 2016

Diálogo com Hölderlin













Voltar a Hölderlin numa noite chuvosa de domingo é ouro.

A viagem da vida

Para o alto forcejava meu espírito, mas
Amor trouxe-o logo para baixo, mais ainda
Encurvou-o o sofrimento; assim, eis que o arco
Da vida me trouxe ao ponto de partida.

Tradução de José Paulo Paes

Aqui um pálido reflexo que incluí no próximo livro, Movimento Suspeito.

A ilha de Kant

Atlântida infundada
a vida
apenas
ponto de partida
nenhum
porto de chegada


sábado, 20 de agosto de 2016

Poetc II















Poetc II

Caro
Décio Pignatari, 
fui poeta
desmedido
a metro,
metade abstrato,
metástase concreto.
Cubocomunisca,
meio entrelinhas,
meio papo reto.
Trêmulo
de gongórico
simulacro,
epígono
do vácuo,
sepulcro
de rizomazônicos
verSOS.

Todo o jogo
agora encerrado,
lacro:
fui poeta,
sou poetc.

Poetc


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Dia de visita











“¡Oh ciudad de los gitanos!
La guardia civil se aleja
por un túnel de silencio
mientras las llamas te cercan.”

- Federico García Lorca


Puxou
a cordinha de náilon azul
bem resistente.
Com calma, sacou da xota
uma trouxinha de maconha,
um celular,
dois abortos
e os corpos dos dois irmãos
assassinados pela polícia.


Duelo



















Esgrima no escuro, outro florete
ausente, o que se golpeia não sente
filete vermelho no meio do peito.
Pelos cinzas chamuscados de esquivas
invocam rubros demônios da noite.

Ouve-se falsa respiração, falta
de fôlego da vingança ao caírem
lâmina, lágrimas e mil palavras
na lixeira de plástico lilás.
Um sonho sangra na ponta da sombra.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

A cidade faz água





















A máfia
lava o dinheiro sujo.
O tráfico
lava riquezas ostentosas.
Os comerciais
lavam a roupa suja da tv.
Os cambistas
já lavaram turistas.
Os patrocinadores
lavam escolas de samba.
Os políticos
lavam os votos.
Os explorados
lavam a alma
com sabão barato.

A CEDAE informa:
faltará água quarta-feira,
não há vazão para tanta sujeira.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Ponto cego





















Se não há céu
e estamos sós,
o que há
e
n
t
r
e
nós? 

Antiode, João Cabral de Melo Neto



















Antiode (contra a poesia dita profunda)

A

Poesia te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer,

gerando cogumelos
(raros, frágeis, cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie

extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro.)

Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.

Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.

B

Depois, eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(Pelas vossas iguais

circunstâncias? Vossas
gentis substâncias? Vossas
doces carnações? Pelos
virtuosos vergéis

de vossas evocações?
Pelo pudor do verso
– pudor de flor –
por seu tão delicado

pudor de flor,
que só se abre
quando a esquece o
sono do jardineiro?)

Depois eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(flor, imagem de

duas pontas, como
uma corda). Depois
eu descobriria
as duas pontas

da flor; as duas
bocas da imagem
da flor: a boca
que come o defunto

e a boca que orna
o defunto com outro
defunto, com flores,
– cristais de vômito.

C

Como não invocar o
vício da poesia: o
corpo que entorpece
ao ar de versos?

(Ao ar de águas
mortas, injetando
na carne do dia
a infecção da noite).

Fome de vida? Fome
de morte, frequentação
da morte, como de
algum cinema.

O dia? Árido.
Venha, então, a noite,
o sono. Venha,
por isso, a flor.

Venha, mais fácil e
portátil na memória,
o poema, flor no
colete da lembrança.

Como não invocar,
sobretudo, o exercício
do poema, sua prática,
sua lânguida horti-

cultura? Pois estações
há, do poema, como
da flor, ou como
no amor dos cães;

e mil mornos
enxertos, mil maneiras
de excitar negros
êxtases, e a morna

espera de que se
apodreça em poema,
prévia exalação
de alma defunta.

D

Poesia, não será esse
o sentido em que
ainda te escrevo:
flor! (Te escrevo:

flor! Não uma
flor, nem aquela
flor-virtude – em
disfarçados urinóis).

Flor é a palavra
flor, verso inscrito
no verso, como as
manhãs no tempo.

Flor é o salto
da ave para o voo;
o salto fora do sono
quando seu tecido

se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
como uma máquina,
uma jarra de flores.

E

Poesia, te escrevo
agora: fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras

palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,

contando com sua
breve. Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe

como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira

das virtudes teologais. 


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...