Sete poemas inéditos





Hoje, ao mexer em uma pasta, encontrei vários poemas da década de 70. Aqui vão sete escolhidos aleatoriamente  entre centenas deles.

I

O poeta lírico
construiu idílios
com o fio do bucolismo,
inventou pastores
temperados com pseudônimos,
semeou melodias amenas,
recriou liras e ninfas.
Depois de tudo,
morreu atropelado na Praça XV.

II

No baile de sábado,
som e porrada comiam soltos.
Casais trepavam
atrás do muro.
Um vizinho solitário,
doente de abandono,
despencou três tiros
em cima de um casal.

III

Corte


Trabalhar o teu corpo moreno.
Trabalhar o teu corpo moreno.
Trabalhar o teu corpo, moreno.

            14.10.76

IV

Página de um diário *

Sexta-feira, 10/08/76 –
papai não fodeu com mamãe
parece que os dois brigaram durante a noite
fazia muito tempo que papai não vinha em casa
na última vez deu-me um carrinho de bombeiro
(eu vi o peru dele quando ele tomava banho)
hoje está irritado não quer conversa
mamãe – ouvi tudo – disse que não aguenta mais
vai procurar outro homem na rua
vai deixar de ser boba
– papai e mamãe nunca se entenderam na cama.

* Poema do livro Sopa & veneno, de 1976, para sempre inédito.

V

A primeira prisão é a mais dolorosa.
Vencido o peso do silêncio inaugural,
talvez haja tiros e piadas
como alguém se dizer “autoridade”.

VI

PPÀJjyNHa VanGUarDizTTA *

u pueta antena da roça

cor de car de ser a azul
o mar qui 'stamos em pl*no m*r
loup bosk lord magrinfa pode
o u ermitom de Mucém de Belém
o joyoceano plexus Miller mil
us ares du planeta Mungo Fungo
Humpt-Funde-se em metal lilás
ó grão mágicOZ ó pão de Lautréamont
ó Rimbaudzinho ó Cruz e Sousândrade
u pueta antena b*rata sem casca
u pu pu pu gi la to gi le te
u pueta (l)ante(r)na ou rato hosana
Rabelais Rabelais lait de fé
a vaca metafíxa de Borges
m*s u pueta ofídioficial é vilversátil
quaze u bobu da corty u bardo de vã
u contínuuuuo du gosmegosmeguverme
amanhã aManho os t*us p*nt*lhos
a censSURRA m*us ouvidoridos
a mais Butantã de smtks (sem tidus)
extra ppavagina vancubista icônica
iconoclasta casta seita sectaária
exta phaphavagina hímen do cabaço
porra é uma koisa louca pra karalho

* Poema do livro Sopa & veneno, de 1976, para sempre inédito.


VII

Convício

         A Carlos
         A Fernando

Os dois amigos
irmanados no riso
conjugaram a loucura
e repartiram a vida.

Os dois prostitutos
foram à fonte beber sonhos
porém só encontraram a liberdade
depois de perderem o juízo.
           
          08.06.77

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