quinta-feira, 30 de junho de 2016

Desconectivos

Max Ernst





















Sem
e com,
vou por
e contra.
entre
sob
sobre
perante
palavras

Aço
e flor
até o pântano
ou ao Atacama.


Ante
por trás
até
o nada
e o infindável
desde
o fundo
ou fora
de prumo
e da hora.

Vou ficar
e não vou ficar
para levar
meu barco
a uma página
em branco
pelo espanto
de ver que todos os nomes
caem no mar
sem peixes sem após

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Vazante




Sou um rio
cada vez menor,
já não caibo
entre a nascente
e a foz.



A arte de saltar janelas





















Ah, a subida.
Súbito
não há mais saída
de grau
em grão
a vida
no vai-em-vão
des/regular
a voltagem
no último vagão
arrebentar-se
pela janela
antes do posto de controle
carimbar o passa-fora
sangue e ervilhas
salvam-se da viagem
à nova arquitetura psíquica
do humano em crateras
e cebolas,
muitas cebolas cortadas
com lâmina inox
de cabo cor de abóbora;
cascas e corpo no chão.

Fraternal








As datas apagadas
combinam com flores ausentes
e velas acesas
muito mais do que combinávamos,
crias de contrabando,
eu e você,
meu irmão salvador,
que só conheci  aos 12 anos.
e nada tinha a ver
com os heróis de gibi.

Guardo até hoje
o gosto da descoberta
de que minha  blindagem  permaneceria
intransponível
para o resto da vida
como seu retrato ainda jovem
agora
no jazigo à minha frente.



Amor em desmanche

Rony Bellinho





















O amor deu a volta
de fininho,
fingiu que errou
o caminho,
foi bater em outra
porta
(dentro outra rainha
se fingia de morta).



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Comendo poesia














Um poema de Mark Strand traduzido por Wagner Miranda.

Comendo poesia

Tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade como a minha.
Andei comendo poesia.

A bibliotecária não acredita no que vê.
Com olhos tristes
ela caminha com as mãos sobre o vestido.

Os poemas se foram.
A luz é parca.
Os cães estão na escada do porão, subindo.

Seus olhos giram,
suas pernas loiras queimam como um pincel.
A pobre bibliotecária começa espernear e chorar.

Ela não entende.
Quando eu me ajoelho e lambo sua mão,
ela grita.

Eu sou um novo homem.
Eu rosno para ela e lato.
Eu faço a festa na escuridão dos livros.

Eating Poetry

Ink runs from the corners of my mouth.
There is no happiness like mine.
I have been eating poetry.

The librarian does not believe what she sees.
Her eyes are sad
and she walks with her hands in her dress.

The poems are gone.
The light is dim.
The dogs are on the basement stairs and coming up.

Their eyeballs roll,
their blond legs burn like brush.
The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

She does not understand.
When I get on my knees and lick her hand,
she screams.

I am a new man,
I snarl at her and bark,
I romp with joy in the bookish dark.


Presente


















Adormeci
em letras envenenadas
por poema palavroso
hino de Whitman com acelga
recheado com farofa de nomes
de poetas poloneses persas
e paquistaneses
sujo de Bukovski mal passado
quase prosa para micro-ondas
alguns nomes em húngaro
para deslumbramento em feiras
nunca livres de patrocínio
versos mamãe com açúcar
anotações de agenda mingau azedo
junto a resumos web alface
e orelhas de porco lidas às pressas
rebeldia buscada em redes
domésticas

Soubesse o condomínio
do uirapuru citadino
cantor de suicídios alheios
enviaria por sedex
ao vate-açougeiro uma faca
pleonástica
de cabo de madrepérola
bem gasta
envolta em sudário falsificado
na feira de Caxias.

Tá bem velhinha,
mas já cortou
muitas gargantas.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Grau máximo

Alberto Burri















Vi
as vértebras
descerem
o dorso
por uma brecha
acesa
na blusa de cambraia
enquanto braços
absurdamente
devassos
elevavam-se
em prece
para acalmar
espíritos
revoltos em cabelos
ruivos e crespos,
vi com os meus impróprios olhos
camonianos
desde então
imersos em abismos.

In totum




















Todos
os versos
entre
Hamlet
ETs
etc.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Infância com spray de pimenta

Escultura de Pierre Matter



















treslendo-me
ontem
se hoje
um poema
não
meninos de rua
apontaria ultra
bazuca
na banda podre
do poder
(como se a outra
não fosse
cloaca pocilga fossa)
miraria fixo
os silicones da lua
que se partiriam
em lâminas-moedas
caindo nas crateras
homoheteroetc
dos homens das cavernas
vermes em missa/batalha campal
o escambau
manada pasto pestilência
fones montados em bikes
limando as unhas da usura
com umbigo de resina
centopeias em promenade
money-vesgas
bárbaras
babélicas
copacabanababescas

cães e crianças na calçada
sujam a paisagem

os vizinhos chamam a polícia



quinta-feira, 16 de junho de 2016

Dia em branco




















todos os passos
portavam
chapéu panamá e a sombra de uma cicatriz
movendo-se do plano A
para dissolver-se
no  vaivém de borracha
em letras anônimas.
Salvo-me como puder,
plano B de ponta-cabeça
até o fundo do poço.

rasura em dobra
desbordava
de manhã tão vasta
que nela não cabia
pequeno gesto
na entrada do trem-fantasma

a rasura
incita o exercício
de outra escrita –
poema é aquilo que risca
a palavra de ausências.


Bloomsday 2016



















Poema de Jorge Luis Borges neste Bloomsday.

James Joyce

En un día del hombre están los días
del tiempo, desde aquel inconcebible
día inicial del tiempo, en que un terrible
Dios prefijó los días y agonías

hasta aquel otro en que el ubicuo río
del tiempo terrenal torne a su fuente,
que es lo Eterno, y se apague en el presente,
el futuro, el ayer, lo que ahora es mío.

entre el alba y la noche está la historia
universal. Desde la noche veo
a mis pies los caminos del hebreo,

Cartago aniquilada, Infierno y Gloria.
Dame, Señor, coraje y alegría
para escalar la cumbre de este día.

Cambridge, 1968

* * *
James Joyce

Tradução de Augusto de Campos

Em apenas um dia estão os dias
Do tempo, desde aquele inconcebível
Dia inicial do tempo, em que o terrível
Deus prefixou os dias e agonias

Até aquele em que o ubíquo rio
Do tempo terrenal torne à nascente,
Que é o Eterno, e se apague no presente,
O futuro, o que foi e o que ora expio.

Entre a aurora e a noite está a história
Universal. Vejo, do fundo breu
A meus pés o caminho do hebreu,

Cartago aniquilada, Inferno e Glória
Dá-me, Senhor, coragem e alegria
Para escalar a escarpa deste dia.

Cambridge, 1968. São Paulo, 2013.


In BORGES, Jorge Luis. Quase Borges: 20 poemas e uma entrevista. Tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

Um herói do nosso tempo

















Na leve tevê LED
a morte retoma Fallujah.

Raiva por controle remoto.

Sentado num sofá
o ativista de cliques
tira selfie de bom-moço
antes que a criada
lhe sirva o almoço.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Adrienne Rich (1929-2012)
















Tempo norte-americano II

Tudo o que escrevemos
Será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições,
é pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso dactilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar

Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção

e isto é privilégio verbal.

Tradução de Maria Ramalho e Mónica Andrade

In Uma Paciência Selvagem. Lisboa: Cotovia. 2008.


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...