Sintaxe de bolhas




Saio mais uma vez de “Os mortos”, de James Joyce. Desço as escadas, largo as ruas de Dublin para circular cercanias Tiradentes. Todos flutuam dentro de bolhas. Protegidos de sílabas e afetos por fina película resistente a tato, a palavras, à explosão nuclear. Notável este mundo onde casulos flutuantes tomam de assalto a cidade. Tecnozumbis em suas bolhas calculam frações de triunfo, estudam o caráter ascensional dos movimentos, configurados à geometria do poder e à estética do nada. As conexões apenas numéricas, numa rede sem fio e sem finalidade. Imersos na transparência das bolhas, os corpos negam a imagem que aparentam. Não há rosto no interior dos invólucros da matéria desconhecida. As bolhas são práticas, dispensam entrada e saída, portanto não precisam de chaves. Funcionalidade é a palavra mágica (claro, mortal aos poetas). Vejo a passante de Baudelaire sumir dentro de uma bolha esverdeada. Parece que as setas no chão fornecem a direção, por isso todo o olhar é preenchido por imagens em um ritmo alucinante, desse modo perde-se a capacidade de ver algo que vá além de anúncio, letreiro, manchete, mercadoria. Sim, a vida no interior das bolhas vem codificada em um Manual de Instruções. Todos os caminhos estão gradeados em GPS. Todos os movimentos registrados no Arquivo Geral dos Gestos. Lacrado, não em bolha, mas em uma arca enferrujada no depósito municipal, o livro de descobertas há décadas não registra nenhuma palavra. 


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