Poliorama

Catrin Arno


I

guardou do jornal notícias remotas entre goles de um vinho vagabundo era inverno apesar do sol a noite roía saudades ratazana imóvel em um canto do olhar esse calidoscópio no qual a vida flutua gestos e acontecimentos esse deformador de fragrâncias incapaz de sintaxe por não conectar o visível à lógica de um sentido poço névoa abismo o olhar cegueira ensandecida filtro podre odre vazada moedas falsas nada

II

de muvuca rave micareta balada da apoteótica pulsação imperial do neoliberalismo em suas formas lúdicas mantinha distância festa é a loucura silenciosa o gesto sem coreografia a babalorixá com um charuto na xana inscrição do corpo no livro de registros clandestinos no subterrâneo do shopping-sex fora de anestésica exibição de juventude eterna amor a rugas à escultura temporal antiplástico o humano em seus podres

III

irritava-se com Montale Cecília Borges Ponge concretistas Cruz e Sousa Drummond Bandeira Cabral Murilo Mendes Lorca Rimbaud Baudelaire Laforgue beats já não podia ler o que antes amara a poesia morava em teclas só os circuitos permitiam trânsito de poemas uma forma pós-moderna de contrabando e dilúvio percebia que seus versos eram um cemitério textual a poesia é algo que nunca aconteceu apenas uma possibilidade de acontecimento algo que está por nascer um além da língua morta que falamos

IV

escrita nenhuma o abrigaria nômade de textos pirata de mundos invisíveis exilara-se em internet quarto floresta cela caverna coleção de e-mails e fungos alimentavam animais estranhos que saltavam do papel de parede o pavor desenhava espirais em sua testa suava pleonasmos e versos ruins a falta de palavras murchava as maçãs do rosto os textos não-escritos perdidos inconclusos iam deformando os dedos curvando a coluna o não cumprimento da promessa de poesia gangrenou verbos inconjugáveis até que o laudo médico decretasse sintaxe em metástase


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