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Adriana Varejão

Não diria infiltração em tela alheia, antes uma galeria de faits divers, zona de dispersão de fantasmas incubados em espelhos. Pouco importa o piso, o papel, o ladrilho, em qualquer superfície – fria ou quente – a mesma falta de juízo, a mesma curvatura de uma sombra inverossímil, exposta em mímica e contorção. Talvez fosse possível uma outra geometria, incorporando mofo e ângulos mortos. Mas a parede azulejada converte película em museu, um antro enigmático onde a arte instala, em posições artificiais e aritméticas, a vida como resíduo e projeto de nuvem. Não estar inteiro, abolir a perspectiva que conduz a um centro, expõe o corpo (o meu?) e sua sangrenta rota de fugas. Nada de tragédia no percurso. Por favor, não grite. Nenhum excesso anulará o vagaroso acúmulo de gás na pele e nos olhos. Algum desavisado leria, sem dúvida, a secção de sentidos como uma vida desossada, gesto que apenas o conduziria a um cômodo vazio. A sala secreta, no entanto, é música em outro plano. O horizonte não está no olhar, nem longe, nem distante. Horizonte é toda linha que justamente não está. Como você, por exemplo, do outro lado dos azulejos. Desmonte de manhã e depois, a existência como despojos, é tudo que posso lhe oferecer - um buquê de desejos bárbaros manchando o seu vestido floral. 


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