Devaneio

Manabu Mabe


Fico pensando nas horas em que deitado de barriga para cima é possível dizer algo ao outro. Que relação está guardada entre a posição do corpo e a fruição do tempo? O que vem à tona quando, deitados, exaurido o jogo de corpos amantes, falamos num tom manso e sincero coisas que normalmente guardamos em cisternas abandonadas? A voz deitada soa de modo diferente de quando estamos sentados, em pé, ajoelhados, correndo, espremidos em elevador, metrô ou sequer estamos, apesar das palavras. Mesmo deitados em outras posições, ao lado de ausente atenção ou no tom ordinário com o qual desenhamos ações do cotidiano, tecemos comentários e planos, rimos ou nos desentendemos, sempre um compasso distinto. Digo isso porque há poucas horas, deitado, algumas frases saíram como se evaporadas de água desconhecida, numa sintaxe ordenada em ritmo lento e levemente dolorido. Percorreram uma espécie de caminho entre a fonte e os ouvidos que as captaram como se iluminassem um outono existencial. A luz se apagaria irremediavelmente se eu me virasse para qualquer lado da cama. Embora também seja verdade que só os meus olhos, na contramão do corpo, se voltaram para o olhar atento de quem me escutava, pois todas as palavras ditas então levantaram o véu que normalmente recobre o olhar. 




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