Alcoolirismo linguístico

Beatriz Milhazes



Vinha eu caminhando pelas ruas de Pilares quando quase tropeço num gato. Não sei o que eu iria pensar sobre o fato (ainda mais que abdiquei o pensamento, humilhado por Hegel e sua corja). Acontece que me surgiu em um poste um texto do qual sobraram apenas as palavras “já não”. Fiquei em pânico: acaso ou aviso? destino ou rasura urbana? Percebi, então, que havia atravessado uma fronteira sem marcas, estabelecida apenas pela temporalidade. Um gosto azedo na boca me trouxe à memória a locução ”ainda não”, velha fórmula de resistência depois que percebi a vizinhança da grande dama sem rosto. “Ainda” é um advérbio de defesa, o último refúgio da batalha que se sabe perdida: “não” é advérbio de nocaute. De mãos dadas, estas duas palavras ensaiam uma tímida esperança como se unidas adiassem ou evitassem o irremediável. Mas no poste, ao lado do resultado do jogo do bicho, “já não” me lançou um olhar terrível, circunstância de impossibilidade, o sentido mais pleno do desespero, algo que nenhuma gramática consegue expressar. Dizem os doutos, aqueles que acreditam na existência de advérbio, que é “palavra invariável que funciona como um modificador de um verbo, um adjetivo, um outro advérbio, exprimindo circunstância de n tipos”. Essa fórmula enrijecida dissolveu-se provavelmente nas seis cervejas que, sozinho, enviei para o meu hipotálamo. “Modificador”! Causou-me risos a neutralidade científica, tanto pode ser uma referência à hecatombe quanto a ação de um surfista, ao movimento de uma pulga no poema de John Donne ou no pescoço da Gesusha, alegria dos homens. Pensei na circunstância de lugar, fiquei mais tonto do que já estava. Percebi que não sei o que é lugar, que não tenho lugar, que não vou a lugar algum e que em nenhum lugar posso pespegar qualquer circunstância. Ainda fiz uma engenharia demencial: lugar fechado, aberto, cheio, vazio, dentro, fora, destruído, paradisíaco, lugar a que nunca se foi, lugar da infância... Ou seja, aqui, ali, lá, cá, acolá, toda a quadrilha dos dêiticos são trapos, remendos da linguagem. Lugares só existem em sua totalidade, senão viram ruínas ou fantasmas. Não obstante, voltei ao “já não”, cuspi-lhe na cara, acusei-o de uma sonoridade ridícula (sempre achei um absurdo o nome “Japão” associado a um país que não merece esse som bárbaro e pesado). Voltei trôpego, atravessei a fronteira do impossível e fui tomar mais meia dúzia de cervejas dominicais.


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