terça-feira, 31 de maio de 2016

O porteiro de Kafka




“Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. ‘É possível’, diz o porteiro, ‘mas agora não.’ Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: ‘Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro’.”

KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 214.

sábado, 28 de maio de 2016

As invasões




Os bárbaros estão em toda parte,
Kaváfis.
Invadiram a linha dos abraços
estendidos da planície ao sul das palavras
até o céu da boca.
Agora seus cascos galopam sobre anêmonas e rosas.
Há sete luas ultrapassaram os limites
da margem esquerda da primavera.
Marcham rumo ao rio de águas não represadas
onde a vida pulsa liberdade (ainda que precária)
para torná-lo turvo
sujo
impróprio
a cinco gerações futuras.

A cidade vai derrotá-los,
Kaváfis,
com um exército de sambas vermelhos
vai removê-los da ágora em agonia
antes que queimem
poemas, pássaros e .pessoas.

Qualquer vitória sempre será provisória.

Há muito aprendemos;
sempre estão acampados lá fora,
sempre estão entre nós.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Perpetuum mobile



















Palavras em aerossol
comprimidos
ou gel
caem
qual moscas
da boca
sobre o papel.

Algumas pegam
outras pregadas
recarregam as baterias
da incompreensão
nas ruas de Babel.

manada: cantiga

Foto de Carl Warner
















nonada
a primeira despalavra
da saga
de Riobaldo
jagunço
que conduziu
debalde
do nada
a lugar algum
adorado querubim
entre gado
caras de bronze
e bandos armados

entregue
a destino de manada
por também ser rês
não pôde ver
o amor
acontecer
à sombra dos buritis

Clique
























Amor
em instagram,
do apê
aos apps,
mal
se vê
duas postagens
adiante
a porta
se fecha
para sempre.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Faltam dois quilômetros para as duas horas



Só você
agora
me acenderia
no dia sombrio
que apaga
meu nome
com água fria.

Atenda, então,
o celular
e traga a noite
para assombrar
desculpas tortas. .

Mudo apocalipse,
o mundo acaba na caixa postal.


Pilhagem


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Bala de tamarindo




No tempo de menino
o mundo era bem menor
que bala de tamarindo.

O paladar 
ainda soletrava
outros sabores da língua
cega ao dissabor
de saber
que sibilinamente
o azedinho doce
viraria vinagre.

In Anarquipélago. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013.

sábado, 21 de maio de 2016

Poema


Paul Klee




















Nasci do impossível.
Fui criado em abismos.
Embora não acredite em milagres,
é um mistério ainda estar vivo.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

A página que não se apaga
























Dedos negros de luto
trêmulos em letras turvas
acariciam carta antiga
em ignota caligrafia curva
(talvez sânscrito
a escrita em colunas
no xadrez da toalha suja).

No papel prevalece
a erosão dos signos
como se o tempo escavasse
diuturnamente
renovada ferida.

A palavra decantada
permanece viva
como o amor
lançado ao abismo.




quarta-feira, 18 de maio de 2016

A gaiola de Einstein




















O impasse do pássaro
implume
não é o limite do voo
mas não poder pousar
fora do espaço.

Asas imantadas
em alta frequência
no curvo céu de plutônio
esbarram
nas grades da gravidade;
corrosão do salto.
Entre pausa e pulsação
oscilam o universo
e o tempo,
esse demônio.

Voar um pássaro
além da paralaxe,
fora de geometria
e sintaxe.


terça-feira, 17 de maio de 2016

O exterminador de ilhas

The Sea of Jubilation, from Collages from La Femme 100 Tête, by Max Ernst























Ele vem antes do dilúvio,
cigarro e uísque em equilíbrio.
Diz “imperiosa reconfiguração”,
e mais “uma nova perspectiva”,
para acrescentar, exausto,
“um projeto para o século XXI”.

Carrega cidades nas costas,
mede distâncias e cargas,
olha à direita e à esquerda.
O olhar insone insiste:
“Precisamos fazer uma limpeza,
isso aqui está uma bagunça”.

Bela a camisa estampada ao vento
que insufla latitudes e meridianos
aos cabelos tingidos de espanto.
Belos seus pensamentos a barlavento:
supressão de pousos,
poda de portos e primaveras,
previsibilidade dos percursos.
Bela a luminosidade das palavras,
apesar de algumas lâmpadas queimadas:
priorizar, reciclar, operacionalizar, otimizar...

Gosto do seu olhar oceânico
a descerrar manhã e horizonte;
pura potência, puro encantamento,
a conversão de almas em moedas.

Na madrugada da última ilha antes de Ítaca,
esguio como um gato no tombadilho,
grito e esgrimo contra a esquiva figura
grisalha, antes de arremessá-la ao mar escuro.




segunda-feira, 16 de maio de 2016

Café insolúvel

















A dança dos tangarás
na teia azul do firmamento
desentranha uma antiga tese
que nega o movimento.

Oposta ao gesto alado,
a gleba renegada,
a página negra onde moro,
afirma, confirma e reafirma
que jamais ousei um passo.

Talvez a preguiça impeça,
talvez a paralisia;
talvez porque o meu ato
não comprove a minha teoria.


sábado, 14 de maio de 2016

Avaria





















O trem não seguiu o caminho
por isso todos desceram antes do destino.
Alguns atribuíram a falha
à intensa chuva de morcegos
sobre a rede elétrica,
outros falaram do fim dos tempos
e de maquinistas possuídos por demônios.
Certeza somente
a de que todos caminhavam
dois metros abaixo da linha da felicidade.


domingo, 8 de maio de 2016

Cidade anelante

Trabalho de Escif, artista de Valência-Espanha


















Arremessar
lâmpadas
e palavras
contra
a solidez
obtusa
das muralhas
até
derrubá-las

Desarmar
a cidade,
desmurá-la

Despi-la
de senhas,
despedir
áreas infensas
à alegria coletiva,
perder-se
em labirintos
de alumbramento

Pedi-la
sem decretos,
desertos,
deserções

Amorosamente
mirá-la
refundá-la sem zonas de guerra
aberta a todos
que nela sambam e sonham
mesmo que o rumor
do ruir de muros de medo
não passe
de leves passos
de poesia na noite tropical.


Expansão

Cândido Portinari














Um corpo
a menos
baixa
à cova.

Cresceu
a cidade,
ela toda
agora
imenso
campo
de desova.


Desencontro

Lucio Fontana



















Porque faltassem flores
ao jardim
e, ausentes de pássaros e perfumes,
as aleias de bancos verdes
se alongassem às moscas,
alguém não trouxe o sol
para acender a paisagem.


sexta-feira, 6 de maio de 2016

Poliorama

Catrin Arno


I

guardou do jornal notícias remotas entre goles de um vinho vagabundo era inverno apesar do sol a noite roía saudades ratazana imóvel em um canto do olhar esse calidoscópio no qual a vida flutua gestos e acontecimentos esse deformador de fragrâncias incapaz de sintaxe por não conectar o visível à lógica de um sentido poço névoa abismo o olhar cegueira ensandecida filtro podre odre vazada moedas falsas nada

II

de muvuca rave micareta balada da apoteótica pulsação imperial do neoliberalismo em suas formas lúdicas mantinha distância festa é a loucura silenciosa o gesto sem coreografia a babalorixá com um charuto na xana inscrição do corpo no livro de registros clandestinos no subterrâneo do shopping-sex fora de anestésica exibição de juventude eterna amor a rugas à escultura temporal antiplástico o humano em seus podres

III

irritava-se com Montale Cecília Borges Ponge concretistas Cruz e Sousa Drummond Bandeira Cabral Murilo Mendes Lorca Rimbaud Baudelaire Laforgue beats já não podia ler o que antes amara a poesia morava em teclas só os circuitos permitiam trânsito de poemas uma forma pós-moderna de contrabando e dilúvio percebia que seus versos eram um cemitério textual a poesia é algo que nunca aconteceu apenas uma possibilidade de acontecimento algo que está por nascer um além da língua morta que falamos

IV

escrita nenhuma o abrigaria nômade de textos pirata de mundos invisíveis exilara-se em internet quarto floresta cela caverna coleção de e-mails e fungos alimentavam animais estranhos que saltavam do papel de parede o pavor desenhava espirais em sua testa suava pleonasmos e versos ruins a falta de palavras murchava as maçãs do rosto os textos não-escritos perdidos inconclusos iam deformando os dedos curvando a coluna o não cumprimento da promessa de poesia gangrenou verbos inconjugáveis até que o laudo médico decretasse sintaxe em metástase


Helena Destróier



A Vênus do telemarketing
sai apressada da sala no sexto
andar
de leveza e vulgaridade
acesa.

Sem medo,
largo a longa fila de emprego,
perco de vista a entrevista
e me atrevo um Páris.

O coração sai em disparada.
A perco de vista
entre a sala 610 e a escada.
O ascensor me escapa
(bem que li no horóscopo
que esse dia não daria em nada).

Desafio os deuses e a idade,
recordista de velocidade
mas chego tarde à Ítaca.

Vejo a Vênus de crachá
girar a roleta do adeus.

A Vênus de tênis e fones
some no meio da multidão,
essa maldita invenção de Baudelaire.

Eu, Heitor hilário e exausto,
acabo arrastado por um carro
no centro do estacionamento
Aquiles Park.

Um transeunte afirmou convicto:
o morto parecia drogado.




Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...