quarta-feira, 6 de abril de 2016

Konstantinos Kafávis, A cidade

















Hoje seria uma noite de prosa. Tentei começar a leitura de Órfãos do Eldorado, único livro de Milton Hatoum que ainda não devorei. Seria. Eis que o autor de Relato de um certo Oriente abre a novela com este maravilhoso poema de Konstantinos Kafávis, traduzido por José Paulo Paes. Como continuar a viagem? Como vou dormir agora? Como conseguirei deixar de carregar a cidade que carrega meu caminho?  

A cidade

Dizes: “Vou para outra terra, vou pra outro mar.
Encontrarei uma cidade melhor do que esta.
Todo o meu esforço é uma condenação escrita,
E meu coração, como o de um morto, está enterrado.  
Até quando minha alma vai permanecer neste marasmo?
Para onde olho, qualquer lugar que meu olhar alcança.
Só vejo minha vida em negras ruínas
Onde passei tantos anos, e os destruí e desperdicei”.

Não encontrarás novas terras, nem outros mares.
A cidade irá contigo. Andarás sem rumo
Pelas mesmas ruas. Vais envelhecer no mesmo bairro,
Teu cabelo vai embranquecer nas mesmas casas.
Sempre chegarás a esta cidade. Não esperes ir a outro lugar,
Não há barco nem caminho para ti.
Como dissipaste tua vida aqui
Neste pequeno lugar, arruinaste-a na Terra inteira.

1910


(Milton Hatoum retirou a epígrafe de KAVÁFIS, Konstantinos. Poemas. Tradução de José 
Paulo Paes. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.)


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