sexta-feira, 29 de abril de 2016

Folhas e sombras
















Algo se movia no telhado
(escorpião de boca de fogo)
longa estria sonora silvava
estendida entre a caixa d’água
(cinco mil litros de impropriedade
para limpeza de velhos pesadelos)
e incontáveis antenas,
dedos de alumínio contra nuvens vespertinas.
Larguei o copo de café na cozinha,
dez passos nos tacos soltos da sala
puseram-me a rua ao alcance dos olhos.
Tudo o que pude ver
foi o que não podia ser visto,
o peso do vento no tapete de folhas
mortas (sim, algumas ainda se debatiam,
arrancadas a galhos reféns
do balé de pipas que ainda há pouco),
outras guardavam ecos de gargalhadas..
Folhas e folhas rolavam entre carros
e grafites tatuados na linha de muros
da cidade onde o vento me dizia:
“igualdade absoluta entre detento e habitante”.
As folhas à espera de algum sentido,
imobilizadas como ideias antigas nunca
postas em prática,
as folhas sem fotossíntese sem photoshop
sem escaneamento
sem razão
sem argumento.
As folhas levadas de roldão,
insufladas de selvageria
insurgentes
sem pecíolo
rodopiando etílicas
náufragas aéreas
à deriva
dançarinas em bando;
na coreografia do acaso,
rodamoinho,
espiral,
forma aleatória,
leveza inefável.
Lembrei-me do café,
mas já havia infiltração
de folhas nas paredes da sala,
na cozinha,
nas almofadas cerzidas do sofá
escorado por dois tijolos
sobre o qual um conto de Aníbal Machado
abrira misteriosamente suas páginas
para que um menino voasse muito além de qualquer janela.
No vão dos meus olhos espantados
de vento e solidão
tudo era tempestade familiar,
intima estranheza.
Todas as folhas leva(nta)das
todos os poemas do meu caminho
na navalha da ventania.


Cica dos oitis

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