A grande marcha das baleias





















A grande marcha das baleias

Em becos e vielas
presas
à maré tóxica
nadavam
sereias do necrossistema
pesadas
de taras e pecados.

As testemunhas insistem
em versões inconsistentes:
a) adernavam assombros e abandono
b) abismavam autômatos urbanos
c) negavam os negócios de Netuno
d) nadavam o devir impossível
e) eram falsas baleias de plástico e poliéster

Dr. Nereu Caravelas anotou em seu prontuário:

“Hoje, 28 de março do ano tal, animais marinhos não identificados circularam pelas zonas cinzentas da cidade à procura de roupas de mergulho em mar de mercúrio. Não se sabe o destino. Nas ruas ficaram uma gosma esverdeada presa ao asfalto e o ar gelado de vestígios de línguas desalojadas dos polos magnéticos da terra. Eram nove espécimes, uma, diminuta, mal podia acompanhar o resto do grupo. Bufavam alto e traziam estranhas inscrições na pele. Na mais ousada delas, bem iluminada, em letras amarelas, lia-se estranha inscrição entre as estrias: “o caminho nunca está onde caminhamos”. 




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