quarta-feira, 30 de março de 2016

A voz indelével
















A voz indelével

Preciso de fôlego para atravessar
o rio que não deságua em mar
algum por não ser caminho líquido,
apenas doce precipício a me levar
cada vez mais para longe de mim.

Preciso me afogar e não consigo
esgotar a folga, o excesso de páginas
manchadas de fúcsia e amnésia.
,
Preciso me afundar e ainda flutuo
em fendas de palavras infactíveis
e inavegáveis que me levam inerme
a ponto cego do horizonte instável.

Preciso de fôlego, mas caio ofegante
como alguém morto cai em outro corpo
em meio à tempestade e ao desamparo
para reacender a res/piração de Lázaro.



Outono














Outono

Outro outono
varre folhas mortas lá fora.
Muda-se  o tempo,
a cama muda.

Nunca o mesmo vento
leva as palavras para bem longe.
de nosso alcance.

Que falta faz
o amor
quando  já não se alternam
as estações.


Erro de cálculo



























Mô,
vamos fugir da rotina?
Hum! Não é bem a parte de cima
que me deixa falando sozinha.


Herberto Helder














Há cidades cor de pérola onde as mulheres

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
o minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um desespero fulminante,
a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
Imente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente. 

Herberto Helder. Lugar – Poesia toda. Assírio & Alvim, 1979.




Teatro noturno

Iberê Camargo



















Teatro noturno

A morena mignon desceu da moto,
levou os óculos inquietos
à mesinha mais ao fundo
de um bar na rua deserta
- trinta e um graus à noite.
Guardou-os na bolsa em mau estado
(jeans com cavalos-marinhos e remendos),
da qual sacou um livro de Roth,
Pastoral americana.
Logo passou a beber
páginas e chopes
como se tivesse saído de um Sabbath.


Suspeita

















Suspeita

Se aflora
a dúvida
em flor
viço e cor
outrora,
vazia a seiva
do amor
agora,
na raiz mais funda
já se infiltrava
nódoa
de verbo infausto
no plural.


Testemunha lunar




















Testemunha lunar

Após milênios
de pétrea mirada
na história do que afirmam,
com muita impropriedade
ou excesso de imaginação,
chamar-se humanidade,
a lua abandonou a órbita.

Anunciou em classificados
cósmicos:
“Satélite estressado
procura planeta civilizado”.


Haicai
























Haicai

Um pingo de mágoa
transborda  taça ou tanque.
Engano tem peso.


terça-feira, 29 de março de 2016

Intolerância


Inclassificável




















Inclassificável

Esqueci minha mochila
no táxi.
Dentro a mão direita
e um rim bichado.
O telefone da cooperativa
ocupado.
Mochila militar
desfiada
com manchas de felicidade.
Favor não devolverem 
o anel de noivado.


segunda-feira, 28 de março de 2016

A grande marcha das baleias





















A grande marcha das baleias

Em becos e vielas
presas
à maré tóxica
nadavam
sereias do necrossistema
pesadas
de taras e pecados.

As testemunhas insistem
em versões inconsistentes:
a) adernavam assombros e abandono
b) abismavam autômatos urbanos
c) negavam os negócios de Netuno
d) nadavam o devir impossível
e) eram falsas baleias de plástico e poliéster

Dr. Nereu Caravelas anotou em seu prontuário:

“Hoje, 28 de março do ano tal, animais marinhos não identificados circularam pelas zonas cinzentas da cidade à procura de roupas de mergulho em mar de mercúrio. Não se sabe o destino. Nas ruas ficaram uma gosma esverdeada presa ao asfalto e o ar gelado de vestígios de línguas desalojadas dos polos magnéticos da terra. Eram nove espécimes, uma, diminuta, mal podia acompanhar o resto do grupo. Bufavam alto e traziam estranhas inscrições na pele. Na mais ousada delas, bem iluminada, em letras amarelas, lia-se estranha inscrição entre as estrias: “o caminho nunca está onde caminhamos”. 




domingo, 27 de março de 2016

As luas de Saturno
















As luas de Saturno

preciso sair
das palavras
não me guardar
em sílabas
remontáveis
ad infinitum
atrás das velhas pilastras
do discurso
frases já não alcançam
um caminho

dizem lá fora
onde sol
em voz alta
existe uma terra
farta de pedras
e abandono
a ser colonizada
pelo silêncio




Cartão postal em postas






















Cartão postal em postas

as baleias mortas na praia
atraem manadas
de sociopatas com facas
nos dentes
e sangue nas patas

pranchas de surf se estendem
no tapete púrpura do mar


sábado, 26 de março de 2016

Canção da baleia morta













É Páscoa,
e nem uma lâmpada
se levanta
para acalmar o mar
insano
e devolver o nome
às baleias suicidas.


Extermínio, extermídia

Obrad da artista islandesa Gudrun Vera Hjartardottir





















Extermínio, extermídia

canais e turnos
manhã
tarde
noite
ocupados

lotação
esgotada

futuro
no esgoto
se não sobra
uma gota de tempo
pra nada


Cão sem dono


Café xeque-mate

















Café xeque-mate

Falta-me fôlego,
foge-me o ar no terraço
do café,
vai-se na fumaça
azulada
antes da conta
nas mãos gordurosas do garçom
e de meu olhar entorpecido
cair em falência
na xícara de olhos verdes
sobre a mesa ao fundo
xadrez 
saboroso
na penumbra.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Samuel Beckett

Man Ray: “Dora Maar” 1936. París


Fragmento de O inominável, de Beckett

"... eu sou em palavras, palavras dos outros, que outros, o lugar também, o ar também, as paredes, o solo, o teto, as palavras, todo o universo está aqui, comigo, eu sou o ar, as paredes, o emparedado, tudo cede, se abre, deriva, reflui, flocos, sou todos esses flocos, cruzando-se, unindo-se, separando-se, aonde quer que eu vá me reencontro, me abandono, vou em minha própria direção, venho de mim, nunca mais do que eu, que uma parcela de mim, retomada, perdida, falhada, palavras, eu sou todas essas palavras, todos esses estranhos, essa poeira de verbo, sem chão onde pousar, sem céu onde se dissipar, reencontrando-se para dizer, fugindo-se para dizer, que eu as sou todas, as que se unem, as que se separam, as que se ignoram, e não outra coisa, sim, qualquer outra coisa, que sou qualquer outra coisa, uma coisa muda, num lugar duro, vazio, fechado, seco, limpo, negro, onde nada se move, nada fala, e que eu escute, e que eu ouça, e que eu busque como uma fera nascida na jaula feras nascidas na jaula feras nascidas na jaula  feras nascidas na jaula  feras nascidas na jaula  feras nascidas na jaula  feras nascidas e mortas na jaula  nascidas e mortas na jaula feras nascidas na jaula e mortas na jaula  nascidas e mortas nascidas e mortas na jaula na jaula nascidas e depois mortas  nascidas e depois mortas, como uma fera digo eu, dizem eles, uma fera assim, que busco, como uma fera assim com meus pobres meios, uma fera assim, não tendo de sua espécie mais do que o medo, a raiva, não, a raiva acabou, apenas o medo, mais nada de tudo que lhe cabia do que o medo..."


Samuel Beckett. in O inominável. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989, pp. 107-108.


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...