sábado, 31 de dezembro de 2016

Regalo


Man Ray. "La femme et son poisson", 1938





















regalo

impossível degustar
o aroma da manhã
páginas não escritas
nublam a descoberta
do sabor
esqueço de desfiar
o fio de azeite
sobre a salada de nuvens
sem óculos
a mesa quase em branco
o cerne do saber
decerto
fora da travessa de cherne
tudo o que se quer
a polpa dulcíssima do teu corpo
do outro lado da mesa
o céu aberto


A cicatriz de Ulisses

 
 
A cicatriz de Ulisses

A velha ama
Euricleia
vislumbrou,
ao lavar os pés
do forasteiro,
velha cicatriz:
não era no joelho,
mas um pouco mais acima.
Sabia agora
por que tamanha demora.

Cláusula pétrea

 
 
 
Cláusula pétrea

No meio do caminho
no fim
no início do caminho
pedra
precipício
em todo o caminho
o princípio
depois do fim
do caminho


Sinais de fumaça

 



Esta narrativa foi publicada no livro Fora de forma & outros foras (Ibis Libris, 2014). Aqui ela está em sua versão completa.


Sinais de fumaça


Essa história me foi contada por um velho lápis à beira da morte.



“Há muito tempo, durante uma revolução na escrita, um nobre e presunçoso til apaixonou-se por uma vírgula desconhecida. Obcecado pelas pernas curvas da bailarina da linguagem, o til atrevido rompeu com os melhores amigos da alta sociedade: os acentos grave, agudo e circunflexo, além das aspas, irmãs siamesas. Seu amor por aquela criatura da classe baixa,  que vivia misturada a tipos inferiores como pontos, travessões, hifens e reticências, transformou-o num pária a exemplo do velho companheiro trema, banido por decreto a exílio eterno.



Apesar de viverem em espaços diferentes, a paixão apagou as distâncias; peles arrepiaram-se, bocas selaram promessas, sonoridades do gozo vazaram rios noturnos. Mas o coração sempre oculta um saco de veneno em um dos ventrículos. A vírgula passou a cobrar do til mais presença em sua vida, queria sentir o fino perfume de suas palavras, a cabeleira em ondas do jovem aristocrata pulsando sobre os seus seios ofegantes. O til, com voz fanhosa e enfadonha,  sempre alegava excesso de trabalho ou problemas na mucosa nasal que quase impediam a respiração.



Alguns meses transcorreram pesados, perdidos, a proximidade fazia água, o til raramente aparecia. Até que, numa esplêndida madrugada de outono, apareceu todo animado na linha onde a vírgula morava. Ao chegar contemplou de queixo caído a cena que o deixou irremediavelmente amargurado: um ponto movia-se como minúsculo demônio por cima da vírgula adorada.
Desconsolado, vagou por páginas e páginas até entrar na Taberna Vernácula. Lá encontrou os irmãos parênteses, membros da classe intermediária. Após ouvirem com desinteresse o relato do til traído, o mais novo, responsável por encerramento de enunciados, disse-lhe com certa ironia na voz: 'Nobre til, os boatos que correm pela cidade colocam-no numa posição insustentável, afinal é você que vive dando em cima da vogal a."

 

Intervalo

 
 
 
Armada
até os dentes
de palavras fatiadas
pela metade
a primeira hora do ano:
inseto na língua.
 
 

Percurso




Poema do livro Anarquipélago (Ibis Libris, 2013) 


Percurso

Do útero
ao túmulo
tudo
é tumulto.


Trash poetry

 
 
 
versos
bichados
rolam
no papel b
de bolor
barato

fora
Frank Zappa
ao fundo,
Me segura que vou dar um troço,
do Wally Salomão,
nenhum roteiro
arrumado
zero
efeito especial
nulo
crono/grana

sete palavras nucleares
esperam vaga
no acaso
na fila do poema,
como se esperassem
a vez
na fila do banheiro

trapos nas estrias
de seios murchos,
risos de putas
extenuadas,
melancólicas,
carregadas de
solidão e sacolas,
atrizes decadentes
representam
como ninguém
becos sem saída

fora de circuito
o poema
circula
provocação,
incandescência
 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Passagem


























Passagem

Em  nenhum momento
doze meses urgência adentro
o tempo
usa spray
para marcar passagem

Entre o que veio e o que deixou de vir
cidades de ouro
encerram-se aéreas
em caminhos incinerados
por falsas estrelas
tudo se fecha
estreita-se o verbo
em fenda
feracíssima fenda
não mais
pássaro
no céu em curto
já não pode alongar
o canto
decanta
refulgência
em estado de graça
o azul e o âmbar
de asas alheias

mês a mês
poemas na mesa
até a passagem
da palavra
a pássaro

e pássaro
é tudo
que se dissolve
no espaço

Anomalia




Anomalia


Fatal anomalia
a falha
no diálogo
com a minha época;
percebo
por que vivo
fora de sintonia
: o próprio presente
é pura anacronia.

Catorze passos com barreiras

 




Versão completa de uma das narrativas do livro Fora de forma & outros foras, lançado em 2014 Editora Ibis Libris.


Catorze passos com barreiras


Primeira estação



Veio a névoa, densa neblina obliterando formas. Teu rosto ainda não existia no retrato, tua voz dormia cantatas em dias de chuva, e o desejo sequer latejava remotíssimo sabor futuro. Minha pele encerada por cerdas ásperas de nostalgia, pergaminho em caminho de rugas, solo intocado dos passos que um dia curvos. Tempo esvurmando minutos, grinaldando de grisalho pelos, cabelos, memórias. As palavras vieram depois, filtradas por máquinas de sucção de impurezas e excessos sintáticos. Os filtros eram falhos como as letras do manual de instruções. Uma vegetação luxuriosa saltava do coração da noite âmbar e ambivalente. Incenso de vigília e tempestade exalava-se em espera. Corria um rio invisível entre os móveis ofertados aos cupins na sala, ouvia-se o ritmo das corredeiras e quedas d'água saltando do pulso. Tudo um fluxo, tudo um continuum, mas nada apontava a possibilidade do legível. Nada de limpidez, toda geometria desmanchava-se em sombras no horizonte a anos-luz de distância. Tudo se tingia de pardo-obnubilante. Linhas voláteis desenhavam um chão de nuvens. Fugidios e movediços, os objetos afirmavam-se como um não-é-para-mim, algo latente num sempre-além, fora das circunstâncias, da vida e suas adjacências entrevistas como relâmpagos apenas em pesadelos. Aéreas fotomontagens as pessoas, nenhuma ascese, nenhum princípio de transcendência ou aproximação, redomas metafísicas. Longe, sempre longe o campo do real objetivo, a latência de formas vivas, a irrupção de sujeitos. Assim, caminhar e tateio operavam sinonímia, entendimento erigia-se em obscuridade, existir era um território de avessos. O trajeto vertical descendente radicalizava perdas e recusas. Mas algo atravessou a névoa, uma instalação desviou o sangue das entranhas para uma baía de águas vivas. Teu corpo, teu corpo, teu corpo, por isso todas as heresias em cântico, todas as blasfêmias abertas em chagas na carne viva. A tua voz do outro lado do impossível explodia o universo. 



Segunda estação



O amor talvez fugisse ao se abrir um guarda-chuva, enquanto a cabeça, virada à esquerda, pensava em travessias. O amor faria bater artérias, portas e janelas, lançando-as do batente ao deserto? Faria cessar a névoa do existir às cegas, entronizando no vácuo uma claridade talvez insuportável, brilho paralisante em frestas pelas quais o vento invade a câmara mortuária onde os sonhos? Se falhos e incompletos, se lacunosos e obsoletos, como a tentativa de domínio sobre natureza diversa da nossa ou sobre aqueles que brotam de nossa urgência e abandono? Onde a possibilidade de circular entre vultos que nos escapam a tardes ensolaradas, lábios que recuam ao primeiro sinal de tangência? O arrepio, no entanto, levantava suspeitas sobre o incontrolável movimento da pele: sístole e diástole, narinas dilatadas, a pressão sanguínea em alfa. Impossível saber o que habita o outro lado, apenas o mergulho kamikaze, impulso.



Terceira estação



Entra-se por qualquer porta escancarada, penumbra fora de perímetro. Às vezes se volta de mãos vazias e com a alma morta. Sempre se alcança, no entanto, ao se erguer os pés além da entrada, mais que porta, nimbo fora de qualquer teologia, bunker de tijolos aveludados isolado no tempo. Por que maciez, champanhe e seda? Por que tantos espelhos e excesso de vermelho nas cortinas? E esse olhar falsificando atração, memória e gula? E essa indumentária incomum sobre a qual repousam aparelhos mecânicos e pílulas para performances guinnessianas? E a boca, sim, a boca, a boca esplêndida e viciosa, a boca, atelier da carne, centro de efeitos efêmeros que escapam ao provisório, aos prazeres-zumbis que se recusam à morte, mesmo confinados em poucos segundos? E a boca que já não diz por que inventa, a boca esponjosa cuja cegueira arremessa urgência nas paredes?

Dazibao

 
 
 
Dazibao 

Desenhei
de olhos fechados
em longas pernas ambarinas
- muralhas da China -
minha desistência
de nômade.
Doravante
serei súdito da dinastia
de olhos ameixas,
escravo das colinas
chinesas
em sístole e diástole
na longa noite da cidade proibida.

Atravessei
o rio Amarelo em hipnose
para caligrafar o gozo
em terrenos de seda e cetim
do corpo de imperatriz
lupina
atrás de um biombo
em Xangai.

Quando o sol
chegar à estação central
de Pequim
apagará o batom na borda
da xícara de porcelana
e o bilhete de passagem.

Nosso efêmero império
sem herdeiros.


Cica dos oitis

Cica dos oitis      Um contrassamba para Hélio Oiticica O sol cica dos oitis seca redundância um gole de parangolé pin...